Relato de projeto de extensão:
“Tarde com Saúde”
Cecília Castro Boaventura¹
Resumo:
Este trabalho é
um relato de um projeto de extensão desenvolvido pela área da psicologia em
associação outras áreas da saúde, teve como objetivo promover a saúde na
comunidade. Para isso, foram realizadas oficinas e stands, informando e
incentivando como melhorar a saúde a partir da auto-estima, do riso e dos
vínculos sociais. O trabalho foi desenvolvido
Palavra-chave: oficina, saúde e auto-estima.
¹
1- Introdução
Este trabalho compreende o relato de um projeto de extensão da área da
psicologia, realizado
A atividade de extensão universitária, segundo Scheidemantel (2004), é uma troca de valores entre a universidade e a comunidade, em que os conhecimentos da academia são levados para a sociedade e que este transfere os saberes culturais para o ensino acadêmico.
A partir da compreensão do papel da extensão universitária, este projeto tem a preocupação em como desenvolver a promoção da saúde e melhorar a qualidade de vida das famílias alvo, sendo que, segundo Minayo (2000), a relação entre a promoção da saúde e qualidade de vida é baseada no “estilo de vida, nos avanços da biologia humana, no ambiente físico e social e nos serviços de saúde.” (MINAYO, 2000. p.9).
Essa relação pode ser compreendida de acordo com Buss citado por Neves (2006), que a saúde é:
...produto de um amplo espectro de fatores
relacionados com a quantidade de vida, incluindo um padrão adequado de
alimentação e nutrição; de habitação e saneamento; boas condições de trabalho;
oportunidades de educação ao longo de toda a vida; ambiente físico limpo; apoio
social para famílias e indivíduos; estilo de vida responsável; e um espectro
adequado de cuidados de saúde. (NEVES, 2006).
Pensando em contribuir para a saúde das famílias específicas alcançadas pelo projeto, este trabalho tem o objetivo de informar e conscientizar a importância de desenvolver a auto-estima, a partir do riso e das relações sociais e evitando assim, o estresse e a depressão, que são agentes responsáveis por desencadear uma série de doenças.
1.1- Melhorando a auto-estima para evitar o
estresse e a depressão:
A auto-estima é:
... a avaliação que o individuo faz, e que
habitualmente mantém, em relação a si mesmo. Expressa uma atitude de aprovação
ou desaprovação e indica o grau em que o individuo se considera capaz,
importante e valioso. Em suma, a auto-estima é um juízo de valor que se
expressa mediante as atitudes que o individuo mantém em face de si mesmo. É uma
experiência subjetiva que o individuo expõe aos outros por relatos verbais e
expressões públicas de comportamento. (COOPERSMITH, apud GOBITTA e GUZZO, 2002.
p. 144).
Para melhorar a auto-estima, segundo Ribeiro (2000), é preciso que o sujeito esteja relaxado e para isso deve procurar técnicas de relaxamento. Dentre as técnicas, Marcucci (2005), cita algumas como terapias manuais, o watsu, o yoga, o relaxamento induzido, o tai-chi-chaum e exercícios físicos. O autor ainda afirma que a atividade física traz vigor e bem-estar, sendo que, quando moderado pode atuar na depressão, também, melhora o sistema imunológico e é considerada como aliviadora de estresse emocional.
Por estresse entende-se, de acordo com o dicionário Aurélio: “é um conjunto de reações do organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa e outras, capazes de perturbar-lhe a homeostase.” (FERREIRA, 1995. p. 279.)
Este estresse ocorre quando há uma tensão emocional e física constantemente e que lentamente, pode adoecer o corpo e a mente é o que declara Delboni (1997). O autor explica que, quando o indivíduo se sente ameaçado, uma série de reações orgânicas se manifesta ao mesmo tempo e é esse processo que caracteriza o estresse, que é necessário para o organismo, pois há um bom desempenho das funções orgânicas e psíquicas, como, crescimento, cicatrização e criatividade.
O estresse positivo é denominado como eutresse, é o que define Hansseyle citado por Delboni (1997), porém se as situações de estresse repetem freqüentemente, podem ocasionar sérios problemas, caracterizado por situações aflitivas, sendo denominado, como, estresse negativo ou distress. Este quadro pode se encaminhar para um quadro de depressão que segundo Ballone (2004) é, “a mudança do afeto para um humor deprimido ou uma diminuição notável do interesse e do prazer”. O autor ainda explica que a depressão pode também surgir em transtornos clínicos e neurológicos, que produzem alguma apatia.
Além do bom estresse, outro fator que contribui para a auto-estima é o sorriso, de acordo com Ribeiro (2000), ao sorrir ocorre a diminuição dos hormônios liberados pelo estresse. Também, proporciona melhora da circulação sanguínea, relaxamento muscular, oxigenação dos pulmões, eliminação de toxinas e produção de endorfina, é o que afirma Jara citado por Aquino (2004). A liberação da endorfina causada pelo riso promove bem estar geral e melhora a circulação e a pressão arterial, fortalecendo as defesas orgânicas, é o que explica Lambert citado por Aquino (2004).
Também como contribuinte na melhora da auto-estima, verificamos o apoio social nas relações sociais. Ribeiro (2000) declara que ajudar as pessoas, à comunidade, sem qualquer interesse financeiro e praticar a generosidade e caridade, aumenta a auto-estima das pessoas que estão passando por dificuldades e a do próprio indivíduo que oferece ajuda. O apoio social proporciona uma ajuda mútua, como compartilhar informações, auxílio em momentos de crise e a presença em eventos sociais. O envolvimento comunitário pode ser significativo para o fator psicossocial, no aumento da confiança pessoal, da satisfação com a vida e da capacidade de enfrentar problema, é o que afirma Minkler citado por Andrade (2002).
2- METODOLOGIA E DISCUSSÃO
O stand e a oficina, no período de 2 horas, foram apresentados a dois grupos distintos, sendo o primeiro grupo representado pela fundação do bairro Liberdade, que foi composto por 50 pessoas cujo alvo foi a família e o outro grupo, representa a fundação do bairro São Gabriel, formado por 30 pessoas, dentre eles adolescentes e idosas.
Na apresentação do stand, foram utilizados cartazes para explicar os benefícios do riso, como melhorar a auto-estima e a importância de criar vínculos de amizade. Outra atividade utilizada foi o jogo de tabuleiro, em que o participante tem de responder se é caso de estresse ou não é e se é depressão ou não, de acordo com as perguntas. Estas foram elaboradas a partir dos mitos populares de estresse e depressão e cada pergunta se localizava em um dos quadrados do tabuleiro. Também criamos a brincadeira da caixinha, em que o participante retira um papel dentro de uma caixa, não podendo revelar o que está escrito no papel, em seguida, tem de olhar dentro de outra caixa. Ao olhar na outra caixa, encontrará um espelho, refletindo a imagem do participante. Na caixa que contém o papel, estavam escritos vários elogios, como, bonita, divertido, legal e etc. A intenção desta brincadeira é estimular a auto-estima do sujeito ao ler o papel e ver a própria imagem refletida no espelho.
2.1- Construindo e discutindo o stand e a
oficina:
As atividades foram apresentadas no stand, para o grupo da fundação do bairro Liberdade, formando por adultos, crianças e adolescentes, possibilitando uma maior interação nas apresentações. Durante as explicações dos cartazes, os adultos mostraram mais interessados em ouvir e participar das discussões sobre as idéias apresentadas, do que os adolescentes e crianças, pois se pode observar que o assunto proposto se assemelha com a realidade em que eles vivem como, problema de estresse, depressão, falta de ânimo e dificuldade de criar novos laços de amizade, verificamos a partir dos depoimentos destas pessoas adultas.
É interessante notar, que a participação e o interesse do grupo do bairro Liberdade é diferente do grupo São Gabriel, pois neste último o único público presente no stand foram senhoras idosas e nenhum adolescentes se interessou em ver e ouvir os assuntos do stand. Ao explicar as informações dos cartazes, as idosas se mostraram interessadas, participativas e gerou até debate sobre os assuntos.
Na brincadeira da caixinha, com o grupo do bairro Liberdade, observou-se muita descontração, tanto que, uma mulher afirmou que a qualidade escrita no papel ela possuía. Porém, ao realizar essa brincadeira com os adolescentes, demonstraram um pouco de desinteresse em abrir e olhar o que continha na caixa. Essa brincadeira da caixinha do grupo do bairro São Gabriel, também, causou impactos positivos para as participantes, mostrando-se contentes e graça ao brincar, podendo entender que conseguimos alcançar o nosso objetivo.
Mas o momento que marcou o stand na apresentação com os dois grupos, foi o jogo do tabuleiro. O grupo do bairro Liberdade mostrou bastante animado e interessado, tanto os adultos, quanto os adolescentes e as crianças e a maioria das respostas acertadas foram sobre depressão. Já com o grupo do bairro São Gabriel, as participantes estavam agitadas, pois as perguntas causaram discussões, se tal mito poderia ser verdadeiro ou não. A dúvida provocou reflexão sobre os assuntos de estresse e depressão e a partir das explicações de cada mito, pode-se dizer que as participantes ficaram surpreendidas e interessadas no assunto, sendo que duas participantes manifestaram os seus problemas com a depressão
Atividade com o lúdico, jogo ou brincadeira, pode-se observar que a técnica possibilita trabalhar um tema ou conflito e que através de uma estrutura promove abertura de perspectiva, expressão dos sentimentos e idéias, permite a encenação de relações, permite o sujeito se veja em situações não cristalizadas no cotidiano, a sensibilização e disposição para a apreensão e produção de novos significados, é o que explica Winnicott citado por Afonso (2003).
Na atividade com a oficina, criamos uma dinâmica de auto-estima, em que, cada participante tem de escrever suas qualidades, imaginando como se essas fossem um produto a ser vendido. Também, usamos o recurso da música, para animar e descontrair os participantes.
A oficina com o grupo do bairro Liberdade foi um pouco difícil de realizar, devido ao grande número de participantes e a variedade de faixa etária. Isto dificultou a obtenção da atenção do grupo e foi necessário explicar várias vezes a mesma atividade. Logo após a explicação, os participantes iniciaram para a prática da dinâmica e pode-se observar que alguns estavam empenhados em falar sobre si, mas outros demonstraram dificuldades, por sentirem constrangidos em não saber o que dizer sobre as próprias qualidades. Essa dinâmica possibilitou entender certas dificuldades das pessoas em elogiar a si próprias e com isso, conseguimos alcançar o objetivo da oficina, que é proporcionar a reflexão da importância da auto-valorização e auto-aceitação.
Para entender o que é uma oficina, Afonso (2003), explica que:
A Oficina em
dinâmica de grupo é um trabalho estruturado, independentemente do número de
encontros, focalizado em torno de uma questão central que o grupo se propõe a
elaborar, em um contexto social. A elaboração que se busca na Oficina não se
restringe à reflexão racional, mas envolve os sujeitos de maneira integral, formas
de pensar, sentir e agir. (AFONSO, 2003. p. 67).
Depois da dinâmica de auto-estima, realizamos outra atividade para animar, relaxar e divertir os participantes, com o uso da música, que possibilitou a interação entre as pessoas e causou descontração as que dispuseram a dançar. A música pode relaxar ou provocar tensão, independentemente, da capacidade ou vontade do sujeito, é o que afirma Dourado citado por Ramin (2002). Além de oferecer relaxamento ou tencionar, também, proporciona outras contribuições, como, “desperta a atenção e estimula a confiança do individuo em si mesmo, ela pode dar vigor, levantar ânimo, ou mesmo deprimir, dependendo do estilo musical.” (SILVA apud RAMIN, 2002. p.2).
Ao realizar a oficina no bairro São Gabriel, houve algumas alterações, como, separar os adolescentes das idosas, a música é apresentada no início da oficina e na dinâmica de auto-estima, criamos um leilão, para quem se oferece a pagar pelo o maior valor das qualidades a serem leiloadas. Iniciamos a oficina com as idosas e ao colocar a música para descontrair as participantes, demonstraram não muita disposição no inicio, mas depois animaram, riram, ficaram contentes e até mesmo as que disseram que não queria dançar, acabaram dançando, sendo assim, conseguimos o nosso objetivo de relaxar e alegrar as integrantes.
Depois da música, partimos para a dinâmica de auto-estima e pode-se notar que ao escrever sobre as qualidades, as idosas se mostraram um pouco arredias, por não saber o que escrever sobre as próprias qualidades, devido a isso, estimulamos dizendo que todos nós possuímos qualidades, mas as vezes não percebemos. A maioria das participantes escreveu sobre as qualidades relacionadas ao cuidado da casa, como, cozinhar, costurar, lavar roupa e etc., mas também, houve outras que conseguiram falar de suas qualidades, que é muito amiga, alegre e etc. Estimular as pessoas a falar de suas qualidades é uma forma de melhorar a auto-estima destas, mesmo que tenham dificuldades, que foi o caso das idosas.
Já com os adolescentes foi difícil desenvolver o trabalho, pois ora mostravam interessados, ora desinteressados. Da mesma forma que foi realizada com as idosas, também, foi com os adolescentes, iniciamos com a música, que infelizmente não surtiu resultado. Os adolescentes não quiseram participar da dança, começaram a rir, disseram que era ridículo e etc. Ao perceber que os participantes não estavam interessados em realizar tal tarefa, partimos para a próxima atividade, a dinâmica de auto-estima. Esse comportamento dos adolescentes é uma forma de defesa, que é denominado por Afonso (2003) de ataque e fuga. A autora explica que as expressões de ataque e fuga são agressividade, preguiça, sono, disputa, competitividade, dispersão, ironias, conversas e etc. Os adolescentes participantes demonstraram algumas dessas expressões, comprovando tal idéia. Na dinâmica, os adolescentes não estavam muito interessados em escrever as qualidades e sim os defeitos, por talvez sentirem medo de serem ridicularizados pelo o grupo. Esse problema em não querer se mostrar foi algo muito claro dentro deste grupo, tanto que, um dos adolescentes tampou a sua folha para não deixar que o seu colega visse o que estavam escrito.
A maioria dos depoimentos descritos relacionou-se com a questão do beijo e quando eles ouviam as qualidades, conseguia identificar quem as possuía, tanto que, os meninos começaram a valorizar as meninas por causa do beijo. Isto causou uma desvalorização em algumas outras pessoas e, possivelmente, pode ter sido uma das razões do medo de se expor as qualidades para o grupo.
Afonso (2003) comenta que dentro do grupo existem dois medos básicos, sendo o primeiro o de mudar, de perder o que já conquistou, principalmente, de perder a identidade do grupo e o segundo, é de ser atacado por estar produzindo alguma coisa diferente que leva à mudança.
3- CONSIDERAÇÕES FINAIS
As atividades realizadas nos dois grupos tiveram certas dificuldades, mas pode-se dizer que foram realizados com sucesso, pois em parte o projeto tinha a intenção de mostrar à comunidade a importância da auto-estima, que as pessoas tem muitas qualidades e devem se valorizar, evitando assim muitos problemas emocionais, como, o estresse e a depressão, melhorando a saúde. A saúde mental também precisa ser cuidada, tanto, quanto a saúde física, porque ambas tem de estar saudáveis para proporcionar o bem-estar. As contribuições do riso para o organismo e dos vínculos sociais são importantes mecanismos de promoção da saúde e qualidade de vida.
4- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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