Relato
de uma experiência:
A
prática da extensão através de oficinas sobre saúde com adolescentes
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Brenda Meireles1
Sara Fonseca 2 Rebecca Temerloglou3
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Resumo:
Este trabalho
apresenta o relato de experiência do projeto de extensão universitária, da
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, “Visitando Com Saúde”, no
qual foram desenvolvidas oficinas com adolescentes. As oficinas foram
construídas por estudantes de vários cursos da área da saúde. O objetivo das
oficinas foi a construção de um espaço no qual os jovens pudessem compartilhar
os seus conhecimentos sobre saúde, e construir de forma coletiva um conceito de
saúde que ultrapassa a ausência de doença.
Palavras-chaves: Extensão; Saúde; Adolescente
1 Aluna do 8º período de graduação em Psicologia da PUC-MG – Unidade São Gabriel.
2Aluna do 5º período de graduação em Psicologia da PUC-MG – Unidade São Gabriel.
3 Aluna do 2° período de graduação em Nutrição da PUC-MG – Unidade Barreiro1- INTRODUÇÃO
A extensão é uma grande
aliada à formação do acadêmico, pois essa possibilita uma interação entre a
teoria e a prática que se aprende durante o curso. O aluno tem a oportunidade
de vivenciar na prática os conhecimentos adquiridos em sala de aula, o que
promove uma diferenciação em sua formação. A experiência se expande de acordo
com cada projeto que o aluno participa. A extensão então, é um espaço
estratégico para a promover práticas interdisciplinares, aproximar diferentes
sujeitos, potencializando o conhecimento e desenvolvendo “sujeitos de mudança,
capazes de se colocarem no mundo com uma postura ativa e crítica”(CASTRO,
2008).
Dessa
forma julgamos pertinente relatar a experiência de uma extensão, do projeto
“Visitando Com Saúde”, a qual teve como objetivo a promoção da saúde com
adolescentes através de oficinas. A saúde é direito de todos os cidadãos, sendo
assim a promoção da saúde consiste em proporcionar meios nos quais as pessoas
possam melhorar a sua saúde e cuidá-la com maior controle (SPERANDIO et al., 2006).
O
trabalho contou com a participação de acadêmicos da Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais, dos cursos de psicologia, fisioterapia e nutrição.
Foram desenvolvidas oficinas de saúde com adolescentes que participam das
atividades realizadas na Fundação Metodista dos bairros Liberdade e São Gabriel
da cidade de Belo Horizonte. Afonso (2006), nos diz que as oficinas são um
trabalho estruturado com um grupo, que cria uma forma de agir, sentir e pensar
através de um ponto central, no caso específico, a saúde. Jeolás e Ferrari
(2002) também dizem que oficina é uma construção de modo articulado, com
idéias, valores, afetos e práticas, de um conhecimento coletivo. Assim, foi
criado um espaço para discussões sobre o conceito de saúde, que de acordo com a
Organização Mundial de Saúde (OMS) é o “estado de completo bem-estar físico,
mental e social, não apenas ausência de doença.” No decorrer das oficinas que
foram conduzidas, construiu-se um novo saber sobre saúde desmistificando o
conceito simplório de saúde relacionado a ausência de doença. O grupo chegou a
essa conclusão, principalmente, com a participação das experiências cotidianas
de cada adolescente, ampliando os conhecimentos de ambas as partes.
2- METODOLOGIA
As oficinas ocorreram
em dois dias diferentes e com grupos distintos, um no bairro Liberdade,
Ribeirão das Neves, e o outro no bairro São Gabriel, Belo Horizonte. O primeiro
grupo contou com a participação de 22 adolescentes o segundo com 11
adolescentes e com a participação de alunos de psicologia, fisioterapia e
nutrição.
O trabalho foi
realizado por meio de uma oficina, composta por cinco momentos. O primeiro foi
a apresentação dos adolescentes e dos acadêmicos, onde cada um falou uma dica
de saúde. No segundo, eles foram divididos em quatro grupos e listaram dicas de
saúde que aprenderam com a família, logo após foram discutidas as dicas
listadas. No terceiro momento eles, desenharam um corpo humano e identificaram
com cores diferentes os agravos e as boas marcas de saúde. Após cada momento
foi promovido espaço para reflexão das atividades realizadas. Já no quarto
momento, foi utilizado o recurso de músicas e de danças para a promoção da
saúde física e mental. Os alunos fizeram alongamentos, executaram os movimentos
pedidos nas músicas movimentando-se livremente e logo após fizeram um
relaxamento. No quinto e último momento, todos em círculo relataram a
experiência da oficina, o que sentiram, o que imaginaram, o que aprenderam com
as discussões e o que gostariam de aprender em outras futuras oficinas. As
atividades propostas traziam questionamentos para os adolescentes e trouxe uma
maneira independente de construir suas reflexões.
3- DISCUSSÕES
As
metodologias utilizadas são úteis para atingir os objetivos, seja de prevenção,
alerta, esclarecimento ou apenas discussões sobre o assunto abordado. É através
desses métodos que ocorrem uma melhor interação e reflexão entre os acadêmicos,
profissionais e público alvo. Partindo desse pressuposto, o trabalho de
extensão realizado interdisciplinarmente, contou com reuniões para a elaboração
da oficina, o que proporcionou uma maior interação entre os acadêmicos, com
participação efetiva de todos, tanto na construção quanto na execução da
atividade.
O primeiro
encontro, realizado no bairro Liberdade, superou as expectativas das
estagiárias, pois todas receavam o comportamento dos adolescentes frente a
oficina, uma vez que os adolescentes têm “fama” de serem críticos. Esta idéia
pode ser confirmada quando Calligaris (2000) afirma que os adolescentes anseiam
o reconhecimento como um sujeito adulto e uma das formas de se obtê-lo é
através da transgressão. Entretanto, os adolescentes se mostraram participativos e interessados nas
atividades propostas.
Em
geral, o grupo mostrou-se independente e com boa produtividade na discussão do
tema, elaborando um conceito de saúde mais completo. Neste sentido Muza &
Costa (2002) afirmam que promover a saúde é contemplar o desenvolvimento
integral, tais como: cuidado com alimentação balanceada; cuidado com as
relações interpessoais; praticas de exercícios de físicos; acesso à informação,
educação e aos serviços de saúde; e um bom desenvolvimento, emocional e social.
Os adolescentes manifestaram estarem
interados sobre o conceito de saúde, principalmente sobre os hábitos
alimentares. Albano e Souza (2001) lembram que na adolescência acontecem uma
série de processos de crescimento e maturação, no corpo e na mente e carências
nutricionais pode exercer impactos negativos para um desenvolvimento saudável.
Ressaltam ainda que, na adolescência a maior ingestão de calorias está
relacionada com a maior aceleração do crescimento.
Os
adolescentes que estavam lá eram criativos, inteligentes e divertidos. Com o
decorrer do tempo e as conversas, foi verificada que alguns deles apresentavam
características e que precisavam de orientações tanto nutricionais, quanto
psicológicas, por exemplo: um caso de uma menina que tem prisão de ventre (com
orientação nutricional poderá melhorar); uma pessoa que disse que não gosta de
nada em seu corpo; uma que diz não ser muito feliz; uma com dificuldade em se expressar tanto na
escrita quanto na fala.
É
interessante ressaltar que os adolescentes entenderam o quão amplo é a palavra
saúde, como pode ser notado pelas sugestões de temas para os próximos
encontros: dança, teatro, música, esporte, preconceito, cursos para prestar
vestibular, alimentação saudável, como funciona as drogas no organismo, doenças
emocionais, entre outros.
A segunda atividade realizada com os
adolescentes da Fundação Metodista no bairro São Gabriel foi muito interessante.
Os adolescentes se envolveram com o trabalho proposto, no entanto, demonstraram
um certo acanhamento nas atividades relacionadas à dança.
A adolescência é uma fase de
transição inevitável, marcada por mudanças fisiológicas, psíquicas e sociais, onde
o adolescente tem a impressão de não ser compreendido pelos adultos (outro).
Para Lacan (1998), ao longo da vida o indivíduo sempre vai precisar do outro
para confirmar uma característica sua, ou seja, vamos sempre precisar do outro
para nos moldar. O homem precisa do outro para existir; porém, o mesmo olhar
que nos constitui (o outro), trás consigo algo que muitas vezes nos intimida,
nos barra, nos impede de ser quem somos, funcionando como uma censura, uma
moral, uma lei social externa que pode muitas vezes nos estagnar; sobretudo se
não conseguimos superá-la ou assimilá-la de forma consciente e saudável. Partindo desse pressuposto percebemos que o
olhar, o pensamento do outro em relação ao que os adolescentes estavam fazendo
parecia algo muito importante para o posicionamento dos mesmos diante das
atividades.
Na
realização das atividades escritas, foi possível perceber que os adolescentes
conhecem bastantes hábitos de saúde. Os mesmos falaram com propriedade quando
se referiam aos ensinamentos familiares relacionados à saúde, no entanto, a
apropriação de tais conhecimentos muitas vezes pareciam não fazer muito sentido
para os mesmos. Como exemplo, um dos adolescentes relatou que aprendeu com sua
mãe que não se deve “nadar” depois do almoço e nem usar “cerol” quando soltar
pipa, porém ele não cumpre as tarefas para não perder tempo fora da piscina ou
de estar empinando a pipa. É neste campo que vemos que não existe uma relação
efetiva com o saber, os adolescentes possuem as informações acerca das dicas de
saúde, no entanto, desconhecem os porquês, e para quê de tais informações, isto
muitas vezes acarreta na falta de credibilidade e cumprimento das informações.
O
saber na maioria das vezes se apresenta como objeto, no entanto, este
encontra-se na relação do homem com o mundo. Devemos pensar no saber como sendo
diferente de aprender. Quando falamos em aprender podemos estar nos referindo a
amarrar os cadarços dos tênis, a aprender a história da arte, entre outros.
Segundo Charlot (2000), aprender é passar da não posse para a posse do saber.
Quando nos referimos ao saber estamos apontando para uma relação do sujeito com
o mundo. “...não pode haver saber
Os
adolescentes, precisam de momentos que proporcione respostas tantas perguntas
que os cercam. Trabalhar a saúde na relações por eles constituídas é algo
crucial neste momento da vida, pois aponta para o posicionamento dos mesmos
frente ao mundo. Esta fase imersa em dúvidas, questionamentos, necessidade de auto-afirmação,
de conhecer coisas novas e do desejo de
ser adulto para ser livre, é carregada, muitas vezes, de uma vulnerabilidade, o
que pode colocá-los em situações desagradáveis ou até mesmo de risco a vida. De acordo com Traverso-Yépez e Pinheiro (2002),
para atingir uma maturidade saudável, o jovem precisa de espaços apropriados
para desenvolver sua auto-estima, sua criatividade e seu projeto de vida, como
foi proposto na experiência de extensão por nós vivida. Experiência que foi
muito enriquecedora e interessante, já que o espaço explorado é de tamanha
grandeza e singularidade.
Após
a vivência das diferentes experiências, entendemos que a saúde não é só o que
normalmente ouvimos dizer no senso comum e/ou dentro das universidades, ela
ultrapassa os limites de um só conhecimento e se torna algo que é e deve ser
construído na relação dos saberes. O trabalho realizado com os adolescentes
confirma que devemos construir estratégias de trabalho diferenciadas, tendo em
vista que não existe uma receita, os lugares, as pessoas enfim, as demandas são
diferentes e por isso necessitam de formas de trabalhos diferenciadas como
afirma Charlot (2000).
4-
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Concluímos que a
prática extensionista tem grande relevância para a formação acadêmica e
principalmente para a comunidade, já que essa prática proporciona construção de
conhecimento.
A
atividade proposta ampliou as informações e o saber dos adolescentes sobre o
tema saúde, fazendo com que eles refletissem todos os aspectos que envolvem o
tema, por meio de dinâmicas, diálogos e músicas.
O trabalho interdisciplinar tem como vantagem
aumentar a riqueza de detalhes e a forma de atuação sobre um mesmo tema, pois
cada acadêmico pode abordar e aplicar de forma eficaz o que estuda na universidade.
Aprendemos
muito com os adolescentes e com os outros acadêmicos que participaram do
projeto, como: ouvir, prestar atenção nas ações e falas de cada um, falar na
hora certa e poder compartilhar experiências com eles.
5-
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à
Coordenadora Kátia Tomagnini Passaglio do Núcleo de Promoção da Saúde da
Pontifícia Universidade de Minas Gerais, que nos possibilitou a participação
nessa atividade de extensão. Aos coordenadores de curso e aos colegas que
compartilharam desse momento. Agradecemos também à Fundação Metodista e aos
adolescentes pela calorosa recepção.
6-
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