Os Grupos na Adolescência:

contribuições para a formação da identidade

 

Eriberto Martins Lemos1

 João Henrique de Sousa Santos1

 

 

 

Resumo

 

O presente artigo apresenta a contextualização da formação de grupos na adolescência, bem como suas características e funções. A partir de uma experiência desenvolvida em um projeto de extensão universitária, realizada em uma escola municipal. Sabe-se, contudo, que em grupo, o adolescente adquire informações que vem e são de fora do círculo familiar. Promovendo estímulos que contribuirão para o desenvolvimento de certas habilidades, como também, análise pessoal pelas comparações com os outros. Com isso, constata-se a importância dos grupos no desenvolvimento social, onde as relações saudáveis sinalizam distanciamento de possíveis problemas emocionais e distúrbios.

 

 

Palavras-chaves: Adolescência. Grupos. Identidade.

 

 

 


1Alunos do 3° período de Psicologia da PUC Minas – Unidade São Gabriel.

 

 

 

 

1- INTRODUÇÃO

 

Objetivamos refletir sobre o papel da formação de grupos na adolescência para constituição da identidade, para tal, utilizaremos como respaldo a experiência de extensão realizada em uma escola municipal, com alunos do ensino fundamental. Tal atividade foi desenvolvida pelo Núcleo de Promoção da Saúde (NuPS), da Pró-reitoria de Extensão (ProEx) da PUC Minas. Um dos projetos do NuPS é o “Saúde Filmes”, no relato desse artigo está fundamentado. Este projeto, objetiva utilizar o filme com finalidades educativas, possibilitando a capacitação da comunidade para atuar como agente provedor na participação e no controle da sua qualidade de vida e de saúde. Portanto, usando o recurso do filme cria-se um ambiente agradável de discussões e ponderações a respeito da promoção da saúde, entendimento de distúrbios e reflexão sobre pontos de vista diferente. Para esta atividade em especifico, foi verificado que os adolescentes envolvidos tinham seus grupos formados, não dando abertura para a entrada de um novo participante.

Segundo Myers (1999), a adolescência é o período entre a infância e a vida adulta. Seu inicio é marcado pela maturidade sexual e se finda com a independência, realização social do adulto. A adolescência é apenas um breve espaço entre a dependência da infância e as responsabilidades da vida adulta. Sabe-se, portanto que se deve levar em consideração a individualidade de cada ser, uma vez que estes possuem reações diferentes, diante do mesmo estímulo. E que os critérios que poderiam definir a adolescência são construídos pela cultura.

Percebe-se então, que a formação de grupos na adolescência tem funções primordiais para o desenvolvimento de seus membros, uma vez que o social está presente tanto no inicio quanto no fim desta fase. Segundo Santrock (2003), na infância o centro motivador das relações é o despertar admiração entre os pares. Sofrer rejeição ou não ser levado em consideração pode resultar em efeitos negativos no desenvolvimento da criança, ou até mesmo perdurar pela adolescência. Na fase da adolescência, o fator mais importante é a forma como são percebidos pelos pares. Diversos adolescentes submetem-se a diferentes situações para serem aceitos em um determinado grupo, pois não participar de um grupo significa viver fora do universo. Um relacionamento positivo com pares tende a favorecer um ajustamento social positivo, evidenciando o companheirismo, a estimulação, o apoio do ego, a comparação social e intimidade/afeição. De acordo com Cole e Cole (2003), podemos associar as mudanças biológicas com as notáveis mudanças nos relacionamentos dos adolescentes com seus pares e familiares.

Os adolescentes esperam com sua participação em um grupo uma experiência que promova bem estar e emoções, satisfação de pertença e companheirismo, esperam também recompensas materiais ou psicológicas. Há uma constante troca de informações, onde os “grupos satisfazem as necessidades pessoais dos adolescentes, recompensam-nos, proporcionam informações, elevam a auto-estima e confere uma identidade” (SANTROCK, 2003) em resposta à questionamentos dos adolescentes referentes a questões vivenciais tais como, relacionamento, sexualidade, namoro e outros. O fato de pertencerem a um grupo concede-lhes uma referência de identidade, como por exemplo: os inteligentes, os descolados, os rebeldes ou bady boys, os atletas, as patricinhas. Segundo Erikson (1972), o adolescente está à procura do “eu” nos outros, na expectativa de obter uma identidade para o seu próprio ego.

 

2- METODOLOGIA

 

A referida atividade de extensão foi realizada em uma Escola Municipal da cidade de Belo Horizonte, com um público alvo constituído por 50 alunos de sétima e oitava séries, entre treze e quatorze anos, aproximadamente. A atividade contou com a participação de doze estagiários da PUC Minas, do curso de psicologia e da coordenação do NuPS.

A atividade foi desenvolvida da seguinte maneira: primeiramente há um contato com o local (escola) onde será realizada, confirmada a participação, a coordenação do NuPS faz uma reunião de planejamento, no qual os estagiários convidados a participarem da atividade planejam juntamente com a coordenação dinâmicas e jogos para serem trabalhados de acordo com a temática do filme. O filme trabalhado foi “Happy Feet” abordando o tema da diferença. Após a reunião de planejamento, há uma reunião de capacitação, onde os estagiários são orientados e instruídos quanto ao desenvolvimento das tarefas e à maneira de se portar. Segue-se a atividade e após esta uma reunião final onde há o fechamento, levantamento dos pontos observados durante a atividade.

Os alunos assistiram ao filme proposto e em seguida a turma foi dividida em três grupos onde ocorreu o desenvolvimento das dinâmicas elaboradas. As discussões foram acerca de o que é ser diferente, quais as implicações, problemas, dificuldades, vantagens e “normalidades”.

Percebemos durante a atividade que quando solicitado a separação em grupos, os alunos já tinham estes formados. A presença de uma consciência coletiva e da afirmação do todo quando um aluno se manifestava, fazia parte dos grupos que se formaram, alguns alunos eram mais pró-ativos do que os demais e esse comportamento era reforçado pelo restante do grupo.

 

3- DISCUSSÃO: FORMAÇÃO DA IDENTIDADE

 

Geralmente a identidade do grupo restrito prevalece sobre a identidade individual. Os membros dos grupos seguem os direcionamentos dos líderes, onde muitas vezes tem que fazer escolhas sobre o que é mais importante para eles, colocando o grupo acima da individualidade pessoal de cada membro. É comum o uso de expressões de intimidade entre os membros, como irmão ou gírias demonstrando intimidade e pertença. Erikson (1972) afirma que os grupos restritos possuem papel fundamental na auto-estima e no processo da construção da identidade dos adolescentes. Questionamentos como quem sou, o que fazer e em que acredito, afirmam a busca do adolescente pela própria identidade, sendo assim,

 

“a formação da identidade emprega um processo de reflexão e observação simultâneas, um processo que ocorre em todos os níveis do funcionamento mental, pelo qual o indivíduo se julga a si próprio à luz daquilo que percebe ser a maneira como os outros o julgam, em comparação com eles próprios e com uma tipologia que é significativa para eles; enquanto que ele julga a maneira como eles o julgam, à luz do modo como se percebe a si próprio em comparação com os demais e com os tipos que se tornaram importantes para ele”. (ERIKSON, 1972, p.21)

 

A conformidade nos grupos é uma característica comum dos adolescentes, podendo ser causada por pressão imaginária ou real, e se manifesta de diversas maneiras como: corte de cabelo, estilo das roupas, uso de drogas, e outros comportamentos. A conformidade pode ser considerada negativa ou positiva. Negativa quando, por exemplo, adotam comportamentos de desrespeito aos professores e pais, roubam e adotam práticas de vandalismo. É positiva quando através da convivência com os pares é despertado um relacionamento saudável, desenvolvendo hábitos e práticas de atividades altruístas.

A regulação emocional é um benefício eficaz na convivência dos pares, quando um adolescente está no grupo de amigos, é favorecido um espaço onde ele pode expressar seus medos, angústias e desafios. As experiências positivas de uns podem suscitar solução de problemas para outros, como também as brincadeiras, o bom humor de um favorece a alegria de todo grupo.

Amizades individuais, a turma e grupos restritos são três categorias apresentadas por Santrock (2003), que caracterizam as relações de amizades em adolescentes. Os grupos restritos possuem poucos integrantes, proporciona maior intimidade e são os mais coesos. A turma possui grande número de participantes, estão unidos devidos à prática da mesma atividade e interesse comum, por exemplo, encontro de diversos adolescentes em grandes festas. As amizades individuais possuem menor número de integrantes, onde a intimidade é ainda maior do que os grupos restritos. O maior diferencial é que tanto os grupos restritos como as amizades individuais têm como causa de aproximação a atração mútua.

Pesquisas realizadas mostram que os adolescentes que fazem parte de grupos restritos apresentam maior auto-estima que os que não fazem parte de nenhum grupo. O grupo de pares é tido como “estação intermediária” transição da dependência dos pais a fase adulta. E que a pertença ao grupo é fundamental na manutenção do auto-conceito positivo durante o período desta transição. Para Santrock, a teoria da comparação social infere no entendimento da adesão ao grupo e da auto-estima, indicando que os membros do grupo podem ter uma auto-estima superior do que os não membros.

 

3.1- As fases dos grupos e diferenças de gênero

 

Para Cole e Cole (2003), a passagem da infância para a adolescência, vem acompanhada de uma reestruturação notável em seus relacionamentos sociais. Afirma que nas sociedades tecnologicamente desenvolvidas, essa reestruturação sofre quatro mudanças consideráveis: ampliação da relação com os pares superior ao da segunda infância, devido ao prolongado tempo de convivência na escola; os grupos dos adolescentes são menos controlados pelos adultos; a proporção que os adolescentes se distanciam do convívio com os adultos, geralmente buscam relacionamentos com membros do sexo oposto; ampliação em tamanho dos grupos de pares, da mesma forma que as amizades e outros relacionamentos ampliam-se em intensidade.

No final da infância meninos e meninas fazem parte de grupos pequenos do mesmo sexo. Nos anos iniciais da adolescência, dar-se início a interação de grupos masculinos e femininos. Progressivamente os líderes iniciam grupos adicionais com adolescentes do sexo oposto, surgindo grupos mistos que podem às vezes substituir os grupos antigos do mesmo sexo. Daí os grupos de sexo misto vão interagindo com outros em diversas atividades como: festas, competições esportivas etc. É comum que no final da adolescência os grupos entrem em processo de desagregação, surgem os casais com relacionamentos mais sérios, a entrada em faculdades diferentes ou início da vida profissional.

Na adolescência os meninos costumam ficar em grupos maiores, suas atividades e brincadeiras geralmente se relacionam a muitos movimentos e pouco dialogo. Já as meninas, optam em ficar em grupos menores, muitas vezes com somente uma amiga, passando a maior parte do tempo acompanhadas. Ao contrário das meninas, os meninos são altamente competitivos. Vários estudos comprovam que estas diferenças entre sexos relacionadas ao agrupamento, não estão presentes somente na adolescência, mais em toda a vida adulta.

Em estudos realizados com observações de grupos de adolescentes, foi detectado que entre as garotas as atividades sexuais eram assuntos freqüentes, elas refletiam sobre acontecimentos passados e planejavam jogos, festas etc. Em alguns momentos conversavam sobre como solucionar problemas corriqueiros. Os adultos eram mencionados como provedores de suas necessidades e como autoridades que impõe obrigações e obstáculos a serem superados. Em todos os grupos estudados foram percebidos interesses na companhia uns dos outros e planejamento de estratégias para criação de momentos comuns, sem a presença dos adultos. Como também, o desejo e o planejamento por algum tipo de comportamento desviado ou delinqüente, como uso de bebida alcoólica, atividades sexuais ilícitas e algum tipo de destruição material.

 

 

4- CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Erik Erikson (1972) afirmava ser o sentimento do eu, a identidade, uma das principais tarefas da adolescência. Embora muitas vezes a adolescência seja considerada uma fase difícil, arriscada, cheia de preocupações, turbilhões e stresse, os adolescentes se relacionam com os grupos relativamente bem.

A formação de grupos na adolescência contribui principalmente para o desenvolvimento afetivo e social do adolescente. Quando em grupo, a identidade do adolescente se perde na identidade do grupo, por isso, muitas vezes, ele é capaz de fazer algo que não faria se estivesse sozinho.

Em grupo os adolescentes amam, estudam, brigam, trabalham. “Batalham com seus corpos, que se esticam e se transformam” (CALLIGARIS, 2000, p.37). Lidam com as dificuldades de crescer em um contexto complicado do meio familiar. Eles se perdem e no “desespero” da procura, eventualmente se acham. Mas, além disso, há uma luta travada com a própria adolescência, que é sustentada pela imaginação de todos, adolescentes e sociedade.

 

5- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CALLIGARIS, Contardo. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000.

 

COLE. Michel; COLE. Sheila R. O desenvolvimento da criança e do adolescente. Porto Alegre: Artmed.2003. 4 ed.

 

ERIKSON, E. H. Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.

 

MYERS, David. Introdução à psicologia geral. Tradução: A. B. Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: LTC, 1999.

 

SANTROCK. John W. Adolescência. Tradução: A. B. Pinheiro de Lemos. São Paulo: LTC, 2003.

 

 

6- REFERÊNCIAS CONSULTADAS

 

ALBERTI, Sonia. Esse Sujeito Adolescente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

 

BECKER, Daniel. O que é a adolescência? São Paulo: Brasiliense, 1997.

 

BOCK, A. M. Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, M. L. Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2002.

 

GOUVEIA-PEREIRA, Maria, PEDRO, Isaura, AMARAL, Virgílio. Dinâmicas grupais na adolescência. Análogia Psicológica, Jun. 2000, vol.18, no.2, p.191-201

 

 

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