A extensão universitária que promove a saúde nas
relações humanas:
aprendendo a ser, a conviver e a conhecer
Resumo
Este
artigo é o resultado das inquietações e leituras derivadas da vivência de
extensão acerca da saúde ampla e integral do ser humano. De maneira integrada e
reflexiva aborda as especificidades das habilidades de socialização do
graduando e do profissional contemporâneo, seja ele partícipe das ciências humanas
ou não. Busca para tanto entender o caminho percorrido pelas ciências humanas
nos últimos séculos culminando no advento do pensamento complexo e do seu
movimento de integração e unificação das dimensões humanas. E fundamenta-se em
prol da valorização de espaços mais humanizados da ciência, entendendo a
importância de se aprender a ser, a conviver e a conhecer.
Palavras-chave: formação profissional; pensamento complexo; extensão; habilidades sociais; trabalhos de grupos; saúde.
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[1]Aluna do 3º período de graduação em Psicologia da PUC-MG – Unidade São Gabriel.
[2]Alunas do 2º período de graduação em Psicologia da PUC-MG – Unidade são Gabriel.
1- INTRODUÇÃO
A extensão universitária vem documentando um espaço relativamente recente no ambiente acadêmico, que muitas vezes é relegado como uma parte de menor valor ao se pensar as três funções da universidade: ensino, pesquisa e extensão. Entretanto a universidade é uma instituição da sociedade e sem o contato com esta se faz incompleta. É uma instituição erguida e sustentada por pessoas, ideologias e formas de perceber e se relacionar com o mundo intimamente ligadas ao contato entre seres diferentes. Por fim, é uma instituição cuja dinâmica é estruturada na vida dos que se dedicam à construção do conhecimento, vida irrevogavelmente social, sendo, portanto, a este contexto a que deve se voltar. Afim de que esse movimento de integração aconteça, o advento das ciências humanistas e de suas características unificadoras funda um caminho em prol da valorização da consciência complexa e inter-relacional. Assim, encarar a extensão como um lugar que associa e acrescenta a comunidade à academia, mutuamente, torna-a peculiar e indispensável ao processo de formação do profissional. A extensão adianta-se, pois, resguardada pela mais jovem abordagem científica, mas não menos importante: a ciência do ser humano.
Dentre as influências que essas ciências exercessem sobre o espaço de extensão uma das mais significativas, se não a mais significativa, é o caráter interdisciplinar e socializador cada vez mais reconhecido e valorizado nas relações interpessoais de qualquer grupo de trabalho que vise um objetivo comum. Ainda que transcorridos grandes esforços no mundo para o desenvolvimento do conhecimento, para o desvendamento do mundo e de suas engrenagens, faz-se urgente que o ser humano aprenda a se relacionar. Conviver, por isso, se torna um desafio para aqueles que passaram considerável tempo centrados em saberes por demasiado objetivos e teóricos acerca do mundo e de suas leis 3.
Isso, por sua vez, levanta reflexões acerca do conceito de saúde e da maneira como esta é promovida. Assuntos tão distantes como esses podem se encontrar? Defende-se atualmente que sim, desde que este substantivo-saúde signifique algo maior e mais amplo do que o “simples” funcionamento do organismo humano. Pois o homem, como um ser social que se movimenta ideológica e fisicamente no mundo e perpassa aspectos múltiplos da vida, não mais pode ser encarado puramente como uma “peça” participante da máquina mundo. Mas, deve sim, ser entendido como um ser de construção que busca, suscitando todas as suas potencialidades, se relacionar com o ambiente da melhor maneira possível, criando situações e resultados inusitados. A dinâmica de atuação deste ser pressupõe a relação com outros seres humanos, e ainda, com o seu próprio ser. De maneira que o conceito-saúde alcança, sim, grandes proporções assumindo não só a denotação de bom funcionamento do corpo físico, mas ainda a satisfação funcional do corpo relacional e psíquico do homem e do contexto a que este está imerso. Admitindo, desse modo, toda a complexidade da natureza do ser humano.
Em outras palavras, ser o homem contemporâneo engloba universos diversos que perpassam a teoria e a prática. Mas também, não eliminam nenhuma das competências características do homem que trabalha em prol do equilíbrio, da saúde, de suas faculdades e engrenagens como um complexo unitário e operacional. A extensão universitária apresenta-se diante disso como um “mundo” de possibilidades múltiplas para trabalhar e desenvolver tais competências e a saúde.
A extensão universitária, então, funciona como um sítio, um laboratório prático, proporcionador de tentativas, erros e acertos que paulatinamente corroboram para a construção de um perfil saudável para o trabalho de grupos, que pode ser entendido como a unidade funcional da vida humana e de todo o seu desenvolvimento. Visto ser neste tipo de ação, a de grupos, que se baseia todo o emaranhado de atividades do homem, que não nasce sozinho, não se mantém vivo sozinho e, sobretudo, não se desenvolve sozinho. Assim, um dos pilares básicos do núcleo universitário, labora a prática do que é aprendido e pesquisado teoricamente na formação dos saberes e instiga o desenvolvimento de habilidades relacionais essenciais à vida em sociedade.
Diante dessas concepções, este presente artigo procura comprovar e documentar a vivência na extensão como um ambiente de trabalhos em grupos e por isso enriquecedora do processo de formação profissional, e por que não pessoal; seja a que área se destine o universitário. Pois, entende-se que instiga nos participantes dessa prática, especialmente o caráter cívico e solidário da atividade profissional e de suas habilidades para conviver e produzir com outros sujeitos.
Surgiu da vivência na extensão pela constatação da relevância que assume as habilidades sociais na prática dos objetivos, das demandas solicitadas tanto pela comunidade quanto pelos alunos, dos conteúdos aprendidos em sala de aula e da dinâmica que envolve os alunos na extensão; a partir do juízo de que a convivência é educativa, proporcionadora de conhecimentos emancipadores e de crescimento pessoal.
As alunas que construíram em conjunto esse artigo buscam, portanto, acima de tudo a promoção da saúde, seja ela de nível social, físico, acadêmico ou psíquico, uma vez que tanto as práticas extencionistas quanto o trabalho teórico, a que as mesmas estão relacionadas, fomentam e edificam um conceito bastante amplo e complexo da saúde do sujeito contemporâneo. Ainda que não haja o satisfatório diálogo e a devida valorização entre as partes sistematicamente delimitadas: a extensão, a saúde e as relações grupais.
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2- METODOLOGIA
Para atingir o objetivo que foi suscitado pela prática extencionista4, buscou-se a reflexão das vivências bem como a pesquisa teórica sobre os temas levantados e por este texto abordados que, sobretudo, é resultado da mescla de todas as discussões e posições alcançadas no decorrer de sua execução.
Esta prática extencionista foi desenvolvida por estudantes de psicologia da PUC-MG com alunos de 5ª série de uma escola pública de Belo Horizonte/MG utilizando o recurso áudio-visual (filme) para fomentar uma discussão sobre o tema Respeito às diferenças. A preparação para a realização desta atividade se deu por meio de uma reunião dos alunos envolvidos com a professora orientadora, onde foram construídos e discutidos os passos da atividade. Para a discussão do tema foram preparadas dinâmicas que provocassem uma reflexão sobre as diferenças existentes em cada pessoa e a importância de se respeitá-las como uma forma de saúde e convivência.
A atividade iniciou-se com a exibição do filme “Happy Feet”, onde estavam todos os alunos reunidos para assistir. Depois, eles foram separados em três salas para a discussão do filme, de maneira que foram ressaltadas as cenas que se referiam ao tema proposto. Em seguida foram realizadas as dinâmicas, para que o tema pudesse ser aprofundado e provocasse nos alunos uma reflexão sobre a importância de perceber o outro como alguém diferente e, por isso, merecedor de respeito. A primeira dinâmica consistia em ressaltar as diferenças indicando características opostas para que os participantes se dirigissem para esquerda ou para direita da sala, segundo as identificações de cada um, formando dois grupos opostos. A segunda consistia em perguntas baseadas na história do filme e que ressaltasse a questão da diferença. A terceira consistia em uma dinâmica da conversa, onde os participantes foram separados em duplas de maneira que um tentaria contar uma história e outro deveria atrapalhar, buscando discutir a importância do respeito que devemos dedicar aos outros quando ouvimos.
A partir dessa vivência, reflexões foram geradas e provocaram anseios por maiores saberes acerca da prática extensionista e de seu posicionamento no processo de formação profissional do graduando. De forma que, se a extensão é feita pelo encontro entre alunos, professores e comunidade e se esse encontro se faz singular frente a todas as outras atividades acadêmicas coloca-se interessante, portanto, cogitar acerca de cada papel desempenhado neste contexto; neste contato. Senão também conveniente é pensar o dinamismo e as alteridades ocorridas no paradigma da ciência contemporânea e seus efeitos como resultados de um caminho a muito iniciado pela humanidade: a busca pela saúde. Engloba, portanto, as publicações que melhor atenderam à demanda fomentada pela prática e suas reflexões. Lembrando, que é fundamentalmente no trabalho em grupo que tudo relacionado à extensão se concretiza, sendo certamente este o aspecto mais relevante para a seleção desta bibliografia e para a construção das concepções aqui registradas.
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3- A COMPLEXIDADE DAS ATIVIDADES HUMANAS
Fundamentar a importância do trabalho de extensão organizado em grupos de indivíduos para o desenvolvimento do ser-profissional é uma tarefa de acuidade. Além de tudo significa perceber o contexto a que essa função acadêmica pertence, sua valorização, dinâmica, metas e capacidades de desenvolvimento. Bem como, pressupõe entender o caminho a que as ciências se engendram e o lugar das manifestações e influências humanas. Assim, conveniente se faz lembrar o alcance que atinge o paradigma da modernidade, sua crise e transformação em pensamento complexo e unificador.
A ciência em sua construção, caminha na linha do tempo de maneira curiosa
e inteligente, conforme escreveu a educadora e especialista
Diante de avanços científicos significativos da microfísica, da química, da biologia, do surgimento da mecânica quântica e de concepções que fundavam o (in)determinismo no funcionamento da natureza (PANNUNZIO, 2005. p.40), consolidou-se uma profunda insatisfação com a visão de mundo até então dominante e a necessidade de se substituí-la. Pois, a abordagem fragmentada a que as ciências se propunham não era capaz de clarear diversos aspectos da vida. Senão também, o homem nesta doutrina não possuía meios para entender o estudado por segmentá-lo de tal forma, que sempre faltasse peças importantes que estariam localizadas em outras abordagens (compartimentos) da ciência. Isso sem dizer o aspecto a que o homem se limita, em uma atuação desumana e objetiva, almejando se eliminar do processo de construção do conhecimento. Tarefa pode-se dizer impossível de se satisfazer completamente.
Conquanto mudanças tão expressivas, como a maneira de se fazer ciência, sejam difíceis de identificar-se e ainda mais complicadas de serem praticadas, o movimento a que a ciência se apóia é exatamente esse: estar em constantes reflexões, reformulações e crises de paradigmas que trabalham em prol do desenvolvimento e de tentativas que melhor trabalhem para a vida e para o mundo.
Assim, numa dinâmica de opostos o ser humano passa a repensar a sua vida
individual e social e a ciência assume o objetivo de conectar os conhecimentos
em abordagens multidirecionais e transdisciplinares, como também coloca que não
se pode mais isolar uma parte do todo, nem as partes umas das outras. E a
proposta deixa de ser coisista,
dualista, fragmentada e substancial para se tornar processo, interação e
construção. Em um nível social, cria-se a consciência do outro, de si e da
relação entre os seres como algo a que se aprender. Valorizando, dessa forma,
todas as faculdades singulares da humanidade, sua complexidade e característica
única de problematizar e se relacionar com o ambiente. De modo que, segundo
Humberto Maturana e Francisco Varella citados por Pannunzio (2005, p.42), “é a
primeira vez que a humanidade faz do auto-conhecimento uma reflexão no interior
da ciência, mostrando a relação profunda entre ser e conhecer e entre os seres
humanos uns com os outros”.
Essa nova linha de pensamento visa, portanto, agregar em uma só unidade os universos que permeiam o ser humano, construindo um todo que se inter-relaciona, se mantém funcional e, acima de tudo, corrobora para o processo de humanização das ações humanas. E isso significa dizer (admitir) a subjetividade e a vida social como fatores decisivos, e não mais prejudiciais, na elaboração do conhecimento.
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4- A
EDUCAÇÃO DIANTE DO NOVO PARADIGMA
O procedimento educativo, que objetiva a integração, o aprendizado, o crescimento e a emancipação do graduando, segundo Maria Montessori (s.d.), só acontece através do auto-ensino. Médica e pedagoga, defendeu que nada há de mais certo e eficiente para a aprendizagem do que o interesse e a conquista do jovem aprendiz: a capacidade de ensinar a si mesmo, se lhe for dada condições. Estas, não são outras senão as de motivação e de poder tentar fazer o melhor efetivamente. A extensão, até então, é o melhor espaço suscitado para tanto, já que integra o aluno às nuances do processo de formação profissional.
Intimamente influenciada pela rota da ciência a educação se molda, como se viu, segundo os padrões de orientação geral da sociedade. Como uma instituição social, seu investimento não deve ser outro: o de integrar as disciplinas lecionadas, integrar o processo teórico ao prático, integrar o estudante ao mercado de trabalho e integrar o estudante à dinâmica de tarefas grupais. Assim, em uma visão otimista, a educação de nível superior cuida de arquitetar maneiras possíveis de se concretizar o desejo de unificação do pensamento complexo. Pois é “através (...) [deste] que percebemos a inseparabilidade do conhecimento e da ação”, (PANNUNZIO, 2005. p.41).
A extensão, então, um dos pilares básicos da universidade (quais sejam: a pesquisa, o ensino e a extensão) funciona como parte dessa tentativa integradora, representando muitas vezes a única passagem possível entre as facetas do indivíduo em processo de graduação e suas falanges de atuação. Mas, de forma singular, a extensão trabalha integrando não só o aluno às suas faculdades operacionais ainda latentes, como também possibilita um contato singular entre alunos e professores tornando a educação ainda mais significante. Além de tudo, funciona como porta de entrada para a prática e o aprendizado de habilidades sociais tanto no trabalho interno de grupos de extensão como no contato cívico entre a comunidade e o aluno.
As falhas, dificuldades, divergências de posições e
conflitos enfrentados para se executar a atividade, são desafios a que os
grupos arcam, e neles os alunos desenvolvem habilidades indispensáveis ao
profissional formado, que deparará com situações similares que valerão, muitas
vezes, o emprego (e, sobretudo, a qualidade da intervenção profissional).
Assim, dentre as diversas “pontes” feitas pela educação na extensão, a que
integra o aprendiz ao contexto grupal e o aprendiz ao contato multidisciplinar são
as mais significativas em se tratando de habilidades necessárias ao sucesso da
intervenção profissional. Isto porque pensar em atuação profissional é pensar
em atuação em conjunto com outros sujeitos diferentes; é pensar em um dos
princípios básicos dos seres humanos: conviver com a diferença. Visto que seres
sociais não vêem possibilidade de crescimento e desenvolvimento, tanto físico
como intelectual, se isolados do meio sócio-cultural a que estão ligados desde
o início da existência. A extensão é, neste aspecto, o conector da natureza do
ser-individual à do ser-grupal na universidade.
O pensamento complexo se relaciona à extensão também por criar uma dinâmica rica e diferente entre alunos e professores, que se encontram para construir juntos o conhecimento e a prática educativa. Conforme relatos de vivências extencionistas “o impacto positivo nas relações entre professores e alunos [culmina do] deslocamento da centralidade do saber da figura do professor para alunos e professor” (CASTRO, [200-]). Abre-se o espaço para o aluno ser o sujeito do aprendizado, e efetivamente construir conhecimentos e intervir na forma desta construção. “O professor tende a ser mais um orientador do que um profeta” (CASTRO, [200-]). Já que a execução dos objetivos da extensão tira do professor a dimensão hierárquica do conhecimento, de sujeito que simplesmente passa a informação, para enfim, dar-lhe um ar de cooperador na construção do conhecimento, dando espaço para o aluno assumir ativamente a ação do aprendizado.
Logo, abrangendo o todo, partindo dessa concepção de que o homem é integral e constituído de várias dimensões, a educação tem diante de si um caminho que integra o conhecimento e instaura um espaço de crescimento do aluno. Das atividades universitárias, a extensão é a que mais se aproxima deste caminho e, por isso, mostra-se indispensável aos alunos.
5- HABILIDADES PARA O TRABALHO: O SOCIAL
Neste movimento de integração a que estão imersas a universidade, a comunidade e a extensão, mostra-se significativa a esfera das habilidades sociais do sujeito contemporâneo. Que é importante por ser sustentada pela experiência da humanidade em séculos de tentativas de se arquitetar a melhor forma de se relacionar com o mundo, com os outros e consigo mesmo. Por isso é conveniente pensar acerca do papel e do lugar reservado ao aprendizado destas atividades em especial, também significativo se faz saber quais são e que efeitos têm na vida social do ser humano. Visto ser por meio destas habilidades sociais que o trabalho universitário em parte se concretiza: dá corpo à integração dimensional fundamentada pela complexidade do pensamento humano e valoriza sobremaneira as peculiaridades do ser humano frente as suas ações no mundo.
O aprendiz universitário ao entrar para projetos de intervenção social e comunitária, se depara com um grande número de tarefas novas, e de situações que lhe cobram condutas de responsabilidade e autonomia no processo de formação profissional. Essas atividades são, como já dito, baseadas todas no trabalho em conjunto, o que por sua vez, cobra do aluno universitário outras, e mais importantes, habilidades para intervenção: as habilidades em relações inter-pessoais.
Tais aptidões são tidas hoje como indispensáveis, pois o mundo que absorve esses alunos, o do trabalho, não admite mais um mero reprodutor de técnicas, exige, sim, um profissional integral que se articule e saiba se colocar frente aos colegas de trabalho.
A extensão aparece novamente como impulsionadora que leva o aluno a participar e buscar ações e soluções para o contexto social (seja o micro, o de trabalhar em grupos, ou o macro, o de acessar realidades da comunidade antes ignoradas) e diante delas atuar, experimentar, conhecer e conviver de forma cívica e responsável. O sujeito do aprendizado deve relacionar suas esferas de conhecimento e potencialidades e estas ao trabalho conjunto com os colegas de extensão e o coordenador. Esse é o desafio a que os alunos se propõem: equilibrar forças do que ele conhece, do que ele é, do que vê e recebe dos outros e harmonizar, tudo isso, como um núcleo único em prol de metas cuidadosamente estipuladas. As atividades extencionistas possibilitam que os alunos atuem em comunidades populares criando a necessária consciência de que se pode construir novas relações consigo mesmo, com o outro e com o mundo, e a partir de um processo educativo, levar em conta a realidade da população.
Da mesma forma o aluno em atividade comunitária ou de grupos é requerido a lidar com habilidades sociais como a aceitação do outro, do que lhe é estranho, inusitado e diferente; deve, para obter bons resultados, saber se posicionar, colocar idéias e opiniões sinceras, mesmo que estas sejam divergentes do grupo; deve saber lidar, inclusive, com conflitos; saber escutar e levar em conta o lugar do outro; saber identificar qualidades e sucessos nos colegas de trabalho. Mas, sobretudo, o que deve haver irrevogavelmente no trabalho conjunto, é o respeito e a destreza no tratamento do outro.
Todas essas aptidões sociais nas relações de grupos e comunitárias são fundamentadas no desenvolvimento do vinculo afetivo.
Através do vínculo, o processo de desenvolvimento
pessoal e social do jovem se torna possível. Na relação e na troca com o outro
ele pode construir e reconstruir suas possibilidades.
O vínculo tem papel essencial em toda e qualquer ação
que objetiva mudanças e transformações, funcionando como o elo de uma corrente
que liga os indivíduos, favorecendo a ampliação do modo de sentir e perceber a
si mesmo e ao outro. (SERRÃO, 1999, p. 32).
Esse processo é feito, portanto, por meio da manifestação da afetividade no grupo de modo que todos possam aceitar diferenças, que todos possam ter vez e voz e sejam valorizados por suas características e capacidades. Mas, para isso, todos devem querer estar no grupo, fundando a efetividade do grupo e criando uma ligação funcional entre afetividade e efetividade.
O coordenador por sua vez, ocupa uma função significativa para o sucesso destas habilidades. Deve ser uma pessoa acolhedora, capaz de escutar o grupo, com a crença da capacidade de transformação das pessoas, estabelecendo um caráter libertador, que permita a expressão de questões pessoais e conduza à autonomia. E, ao mesmo tempo, constituindo um espaço para questionamentos e eliminando tabus prejudiciais ao bom funcionamento do grupo. Sendo, enfim, o exemplo e a motivação para habilidades importantes para que o grupo trabalhe verdadeiramente coeso e produzindo resultados dignos de suas faculdades, sem que essas sejam tolhidas pela intervenção de membros do grupo.
O apoio mútuo se torna, então, imprescindível para o bom funcionamento grupal. Pois a aceitação e a complementação de visões e opiniões fortalece e enriquece a comunicação, além de desenvolver a capacidade de ver os outros em suas individualidades, e de compreender que o homem é um todo funcional que precisa ser entendido e levado em conta em todas as suas dimensões (e diferenças). Assim, com a expressão sincera dos sentimentos, das satisfações e insatisfações, e das opiniões é permitindo que o outro seja considerado e sejam estabelecidos diversos enfrentamentos de forma livre e criativa.
A autenticidade, a criatividade, o desenvolvimento de potencialidades e das relações de confiança em si e nos outros, culmina no aprendizado de grupo que enriquece o processo de graduação e desenvolve nos extencionistas uma relação inter-pessoal de caráter libertador.
Nesse contexto a extensão entra como o já falado campo proporcionador de trabalhos em grupo que permite ao graduando a oportunidade de desenvolver em si algo mais do que a capacidade de decorar teorias, pois o coloca frente a situações inusitadas provocadoras de mudanças de pensamentos e visões de mundo. De sorte que este aluno será um diferencial no mercado de trabalho e será isso ainda mais, se a extensão for um lócus de desenvolvimento das habilidades mencionadas, uma vez que remetem a aspectos necessários ao relacionamento saudável no ambiente de trabalho. Em que, o aluno ou futuro profissional saberá como atuar frente a situações que exigirão dele mais do que a mera utilização da técnica, requerendo também a preparação para levar em conta as experiências do outro, de forma a respeitar as diferenças e enxergar o outro em sua alteridade, se relacionando socialmente de forma positiva e promovedora de mudanças no espaço em que vive.
6- SAÚDE QUE INTEGRA
O conceito de saúde, partindo dessa concepção integradora envolve aspectos sutis e ao mesmo tempo fundamentais como o trabalhar em grupos. A extensão, por assim dizer, é o lócus que permite a aplicação da saúde no universo acadêmico, não só por muitas vezes tratar literalmente desse tema, como também por, na prática, ser intrinsecamente esse conceito-saúde amplo, integral e completo.
Universitários em seu processo de graduação, principalmente em cursos nas diversas áreas da saúde, tendem naturalmente a voltar sua atenção ao que é específico do campo no qual desejam atuar. Privando-se diversas vezes de complementar sua formação com conhecimentos proporcionados, por exemplo, pela atuação em projetos com equipes multidisciplinares.
Estas atividades podem estar ou não relacionadas à extensão. No entanto a atividade em grupo, principalmente tendo como objetivo promover a saúde em seu mais amplo conceito de forma integral e completa faz do universitário e de sua área especifica de formação, peça chave para a composição da equipe. Tratando-se do contexto integral de saúde, deve-se principalmente levar em conta o fato de que a mesma não é somente a ausência de enfermidades, mas sim uma composição de fatores, os quais devemos trabalhar a todo o momento para que o indivíduo esteja em todos os seus aspectos gozando de equilíbrio, físico, mental e espiritual.
A formação deste futuro profissional exige além do intenso envolvimento com os estudos teóricos e pesquisas, um contato mínimo com a prática, por isso a prática extencionista em si proporciona a vivência da teoria, sem que lhe seja exigido conhecimentos mais aprofundados e específicos da mesma para sua atuação, pois esta não está essencialmente ligada a práticas específicas da área de formação do graduando. É algo que pretende enriquecer o universitário no aspecto intelectual, profissional e pessoal, é onde este pode se permitir e estar aberto a conhecer suas próprias limitações e habilidades. Além de trabalhar a saúde, conhecer melhor seu conceito nas diversas áreas, estar em contato com a forma como cada profissional trabalha uma mesma questão, complementar a própria formação tendo novos pontos de vista para discutir e pensar, como acerca da importância do contato com a diversidade, construindo assim uma nova concepção sobre a forma de atuar em uma visão mais integradora e humana.
O fato do graduando sentir-se como uma parte da engrenagem, cuja participação e dedicação, tornam-no peça fundamental na composição do conjunto, traz para este um reforço na busca pelo que é saudável para si, pelo próprio equilíbrio, além de engrandecer o indivíduo pelo reconhecimento que o espaço da extensão pode proporcionar, pelo contato com o diversificado público envolvido na mesma, dentro e fora do meio acadêmico.
O entrosamento proporcionado pelas atividades, entre alunos de diversos cursos, professores de formações diferenciadas e a comunidade, que em geral traz consigo a oportunidade do contato com o público e sua diversidade, resulta em uma troca constante de papéis. Não se é aluno, professor ou comunidade especificamente a todo o momento, pois o conhecimento e a troca deste, ganha uma abrangência e uma magnitude tão sublime, que a fundo todos são professores e aprendizes, e é justamente nesta troca de saberes, que está a essência do trabalho em extensão.
Tem-se visto que a humanização da saúde é uma problemática na atualidade. Os profissionais, talvez pela ausência do contato, desde os primórdios da formação com o público, têm estado a cada dia mais afastados deste que é o objeto do seu trabalho: o ser humano. A preocupação com a formação teórica, o crescimento acelerado dos recursos tecnológico, a preferência pelo trabalho com pesquisas científicas tendem a conduzir o profissional a uma formação mais vinculada a técnica. O que não é especificamente ruim, mas a importância do contato destes profissionais com as fontes de saber que emergem da experiência com o público deve ser levada em conta, independente de seu trabalho estar relacionado ou não ao contato direto com este.
7) CONSIDERAÇÕES FINAIS
Aprender a ser, a conviver e a conhecer é um processo de amadurecimento. Independentemente de como acontece, o fato é que estes são aprendizados que direta ou indiretamente vêm sendo relegados, menosprezados e tidos como irrelevantes para a grande maioria dos acadêmicos. É interessante perceber que mesmo diante de inúmeros avanços de entendimento e valorização dessas destrezas inter-relacionais a humanidade ainda valorize sistemas objetificantes, mecaniscistas e tecnicista.
Resultado da constatação vivencial de que são essas habilidades em ser, conviver e conhecer essenciais ao sucesso do trabalho profissional hoje, é que este artigo foi suscitado e redigido. Pensando ainda no conceito de saúde, e em conformidade com os apelos da comunidade a que se destina o profissional graduado a cuidar da saúde do ser humano é que se busca aqui valorizar no ser humano a capacidade de ser humano.
A espécie humana única em inúmeros aspectos deve voltar-se a si mesma e cultivar o que o advento do pensamento complexo veio trazer: a consciência da unidade complexa que sustenta a vida e envolve o homem. Diante do processo da educação do ser humano, a universidade, lugar de reflexão e questionamentos guia esforços em prol desta humanidade. Assim, direito e dever é conhecer, conviver, ser e saber construir mundos de capacidades admiráveis.
Os graduandos possuem, assim, a extensão como um lugar criativamente rico de possibilidades de aprender o que é primordial a qualquer profissional. Aprendem o que é ser humano e o que fazer com tal aprendizado. Ressalta-se ainda, que esse aprendizado vale a qualquer abordagem científica, visto que todo conhecimento, por mais objetivo e tecnicista que seja, é construído no organismo humano e na mais completa essência humana.
Enfim, a extensão universitária, concretiza-se como um lugar de saúde, de conexão e ampliação dos horizontes de seus integrantes. O conceito extensão-saúde alcança grandes proporções assumindo não só a denotação de bom funcionamento do corpo e da educação, mas ainda a satisfação funcional do universo relacional do homem e do contexto a que este está imerso. Admitindo, desse modo, toda a complexidade da natureza do ser humano.
8- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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