Flávia Acácio e Silva1
Nayara de Pinho Marques Chávez
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RESUMO:
O presente artigo procura apresentar os efeitos que a mídia tem sobre o público jovem, suas influências na constituição das subjetividades, inclusive na sexualidade. Isso a partir da experiência resultante de um projeto de extensão realizado em uma escola municipal. Articulando nossa percepção ao referencial teórico a que recorremos, objetivamos repensar o papel da mídia em nossa sociedade.
PALAVRAS-CHAVE: Mídia; Televisão; Sexualidade; Subjetividade; Extensão.
1Alunas do 2º período de graduação em Psicologia da PUC-MG – Unidade São Gabriel.
2Aluna do 3° período de graduação em Psicologia da PUC-MG – Unidade São Gabriel.
Este artigo objetiva discorrer sobre a forma com que os meios de comunicação interferem em nossas vidas, em especial, na vida dos jovens. Eles são seriamente influenciados, já que, nessa fase, há uma busca por algo que seja definidor e que possa auxiliar na construção identitária. Há muitas dúvidas e perguntas, até então, sem respostas. Trata-se de uma fase marcada pelas incertezas e pela tentativa de se construir. O jovem procura saber seus gostos, estilo e desejos. E, nesse processo de autodescoberta, a mídia surge como fonte de algumas respostas, interferindo e informando. Influencia, portanto, várias concepções, dentre elas a de sexualidade, que é o tema central desse artigo.
Com base em uma experiência de extensão realizada com estudantes do ensino médio, trataremos sobre as idéias dos adolescentes acerca do tema sexualidade e como a mídia pode influenciá-los.
Tal atividade é produto do Núcleo de Promoção da Saúde (NuPS), um Núcleo da Pró-reitoria de Extensão (ProEx) da PUC Minas. Seu objetivo principal, como bem diz o nome, é promover uma melhor qualidade de vida e conscientizar as pessoas para com o cuidado da própria saúde, além de, promover maior interação entre os participantes. Um do projetos do NuPS é o projeto “Saúde Filmes”, do qual surgiu a experiência relatada nesse artigo.
Um projeto de extensão universitária corresponde a uma atividade extracurricular, em que os estudantes desempenham tarefas voltadas para as demandas da sociedade. Assim, criam-se possibilidades de crescimento pessoal, além de se contribuir para a formação de um profissional voltado para a população.
Esta atividade de extensão foi realizada
Este trabalho teve início muito antes de sua aplicação final. Os coordenadores do projeto fizeram um planejamento prévio, entrando em contato com a direção da escola para agendar uma data adequada e escolher um dos filmes propostos e a temática que o acompanharia. O filme escolhido foi “Se eu fosse você” abordando o tema da sexualidade.
Alguns dias antes da realização prática houve uma reunião envolvendo os participantes, que já deveriam ter assistido ao filme. Tal encontro tinha o objetivo de debater sobre o assunto e esclarecer sobre as dinâmicas que seriam trabalhadas no dia. Utilizaríamos sucatas para a construção de algo que pudesse representar características da sexualidade feminina e masculina e exploraríamos as concepções mencionadas pelos jovens.
A atividade contou com a participação de doze estagiários da PUC Minas e da professora – coordenadora. O público era constituído por cinqüenta e um alunos, que assistiram ao filme no auditório da escola e, posteriormente, foram divididos em quatro grupos menores para a concretização das dinâmicas. Estas, se constituíram de uma conversa inicial, onde os adolescentes apresentaram sua opinião sobre o filme e onde foram enfatizados temas polêmicos para o debate, tais como: o papel da mulher e do homem na sociedade, características de ambos, além de objetos, coisas e atitudes que os caracterizam.
Em seguida, os alunos usaram sucatas para expor o que para eles representaria os gêneros feminino e masculino. Eles deveriam escolher algo que fosse marcante na figura da mulher e/ou do homem e depois explicá-lo à turma. As criações foram muito interessantes. Bola de futebol, batom, bolsa, a figura de uma mulher e vários outros objetos foram elaborados. Ao longo do tempo utilizado para a confecção dos trabalhos oportunamente foram abordados diversos temas relevantes. Como, por exemplo, a tendência a acreditar que consumismo é algo predominantemente feminino ou que o homem é que tem que trabalhar para sustentar o lar.
Pôde-se notar, ao longo da atividade, que os alunos atribuíam às mulheres características como vaidade, romantismo, cuidado, delicadeza e consumismo, dentre outras. Além de explorarem muito a questão do corpo feminino. Já o homem foi considerado o que trabalha, dirige e gosta de futebol. Criou-se um espaço de discussão das diferenças entre os papéis do homem e da mulher na sociedade e como esses papéis vêm sendo mudados ao longo dos anos.
Outro aspecto percebido foi a influência da mídia na concepção que os jovens têm de sexualidade. O que há pouco tempo era considerado exclusivamente feminino, hoje começa a ser visto de forma diferente por estar na moda, como foi mencionado por um dos jovens com relação ao uso da cor rosa, atualmente, pelos homens. Essa questão fomentou nossa necessidade de pesquisar mais sobre o tema, já que se constitui como fonte relevante e pertinente de discussão e reflexão na contemporaneidade.
Como bem citou FISCHER (2002), “estão em jogo, no processo de comunicação através da TV, múltiplas e complexas questões relacionadas às formas pelas quais se produzem sentidos e sujeitos na cultura”. Ou seja, a mídia está, hoje, diretamente relacionada à educação das pessoas. Ela ensina formas de agir, de pensar, de ser e estar no mundo. De modo certo ou não, ela educa. Do seu jeito ela incentiva as pessoas a se enquadrarem em padrões estipulados. Portanto, a mídia tem um papel importante de interferência na construção das subjetividades, em especial na infância e na adolescência. Já que, com a saída da mulher para o mercado de trabalho, os jovens têm sido privados da companhia dos pais, passando a ficar mais tempo em contato com os programas televisivos e, cada vez mais, sem o acompanhamento de um adulto. Tornam-se vulneráveis e facilmente influenciáveis pela mídia. Ela age então na construção identitária, na sexualidade, nos valores culturais e em muitos outros aspectos das individualidades. Pode incentivar o consumismo e o vício, incorporando a ditadura do capitalismo. Cria padrões a serem seguidos como o de beleza, por exemplo. Valoriza um tipo de corpo ideal, um tipo de vida enaltecido por tudo que é veiculado nesse meio de comunicação, principalmente pela moda.
A mídia manipula desejos e sentimentos. Exerce um controle surpreendente e assustador. Sua quantidade imensa de informações nos hipnotiza e nos faz ser o que ela quer que sejamos.
Os recursos televisivos interferem na sexualidade de forma que ditam como devemos ser. O que é normal, desejável e o que é negado – a obesidade, por exemplo.
Claudia
Cordeiro Rael utiliza três desenhos animados da Disney a fim de discutir de que
forma os discursos de gênero são veiculados, construindo um modo (ideal) de
feminilidade. Rael afirma que tais desenhos se valem de diversos recursos
simbólicos, como, por exemplo, o uso de cores claras e traços finos e suaves
para representar as heroínas e cores escuras e linhas grossas conformando o
grotesco para designar as vilãs e os vilões. As heroínas são consideradas como
diferentes pelo coletivo, e esse coletivo é porta-voz do discurso que define o
que é ser mulher, discurso esse que parte do binarismo masculino/ feminino, no
qual a mulher aparece como aquela que ocupa o espaço doméstico, embelezando-o,
e responsabiliza-se pela educação e cuidado do marido. A autora reconhece aí a
reprodução de padrões dominantes de sexualidade e a produção de identidades.
(FRANÇA, 2005)
E esses padrões são facilmente identificados em nossa sociedade atual, em que o homem assume o papel de provedor e a mulher é considerada cuidadora. Os papéis são estipulados e estereotipados, além de serem reforçados pelos meios de comunicação. Podemos perceber aí a grande interferência que a mídia tem sobre seu público e o quanto esse papel deve ser repensado com o merecido destaque.
Ao trabalhar o conceito de sexualidade entre adolescentes, percebemos claramente a eficácia da mídia em instituir modelos a serem incorporados pelos indivíduos. O exemplo mais presente disso é o papel estigmatizado da mulher na sociedade como uma figura materna, amorosa, cuja função é cuidar da casa e da família. Notou-se também, a tendência de muitos jovens em associar características negativas à mulher, como “consumista”. Tal exemplo mostra que, ainda no século XXI, o pensamento machista é um grande modelador do comportamento humano.
Diante disso, concluímos que a
mídia é uma das maiores reforçadoras dessas tendências seguidas pela massa
populacional, tendo enorme eficácia, principalmente, em moldar comportamentos e
ideais de crianças e adolescentes.
“O ato de olhar criteriosamente a
TV remete a um trabalho possível (e necessário) em relação a ultrapassar as
chamadas evidências, a ir além do que nos é dado ver de imediato”. (FISCHER,
2002). Logo, a mídia precisa ser analisada de forma crítica e não simplesmente
banida do contato com os jovens. É necessário que seus conteúdos sejam
repensados e haja a construção de um espaço para discussão das temáticas que
surgirem ao longo da programação. Cabe, portanto, aos professores e aos pais,
as principais estruturas na educação dos adolescentes, orientá-los quanto às
diversas questões, inclusive as relacionadas à sexualidade, para que eles não
sejam exclusivamente educados pelos meios de comunicação e possam discernir
sobre o que deve ser ou não incorporado à sua vivência, adquirindo, assim, uma
capacidade reflexiva de avaliar seus princípios, valores e concepções.
5- REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
FISCHER, Rosa Maria Bueno. O dispositivo pedagógico da mídia: modos de educar na (e pela) TV. Educ. Pesqui. São Paulo, v. 28, n. 1, 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-97022002000100011&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 31 Maio 2008.
FRANCA, Kelly Bedin. Corpo, gênero e sexualidade: discussões. Rev. Estud. Fem., Florianópolis, v. 13, n. 1, 2005 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2005000100014&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 31 Jul. 2008.
6- REFERÊNCIAS
CONSULTADAS
CAMPOS, Cristiana Caldas Guimarães de, SOUZA, Solange Jobim e. Mídia, cultura do consumo e constituição da subjetividade na infância. Psicol. cienc. prof. [online]. mar. 2003, vol.23, no.1, p.12-21. Disponível em: <http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932003000100003&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1414-9893. Acesso em: 31 Jul. 2008.
FLAUSINO, Márcia Coelho. Mídia, sexualidade e identidade de gênero. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 25, 2002, Salvador, BA. Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Centro de Ensino Unificado de Brasília, 2002. Disponível em: http://reposcom.portcom.intercom.org.br/dspace/bitstream/1904/18963/1/2002_NP13FLAUSINO.pdf. Acesso em: 31 Jul. 2008.