Bianca Ferreira Rocha2
RESUMO
O presente artigo pretende relatar uma atividade de extensão de alunos de psicologia com idosos, realizada em um “Centro de Apoio e Convivência, onde são oferecidas diversas tarefas aos mesmos. A atividade consistia na utilização de músicas para o resgate de memórias, permitindo com isso que os sentimentos dos envolvidos fossem trabalhados de forma terapêutica, demonstrando a importância da dimensão psicológica para a promoção da saúde e prevenção da hipertensão. Objetiva-se ainda, ressaltar a importância de tais projetos para a comunidade e para a formação dos estudantes, já que se constitui como uma forma prática de adquirir experiência.
PALAVRAS-CHAVE: Extensão; Idosos; Música; Memória.
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2Aluna do 4° período de Psicologia da PUC Minas - Unidade São Gabriel.
Esse artigo relata uma atividade de extensão, realizada pelo Núcleo de
Promoção da Saúde (NuPS) da Pró-Reitoria de Extensão da PUC-Minas, em um
“Centro de Apoio e Convivência para idosos. Nesta instituição são oferecidas
diversas atividades aos idosos, tais como hidroginástica, alongamentos e dança,
que buscam a melhoria da qualidade de
vida dos envolvidos, promovendo também uma maior interação entre os mesmos.
Tal atividade realizada pelo NuPS visava a discussão do tema Hipertensão, demonstrando a importância do combate e prevenção nas suas diversas abordagens: orgânica, psicológica, relacional e social. Esta atividade vem de encontro aos objetivos da instituição, de promover saúde aos idosos, mostrando a estes que “saúde não está relacionada somente à mera ausência de doença, mas é um estado que envolve o bem-estar físico, social e psíquico.” (FLECK et al., 1999, p. 3) A discussão fomentada se faz necessária, visto que busca a promoção da saúde e uma conseqüente qualidade de vida.
Qualidade de vida é um conceito que tem adquirido várias compreensões e é amplamente usado atualmente. Ele possui diversos significados e tem sido associado à forma subjetiva da percepção que o indivíduo tem sobre sua condição de vida, de modo que engloba a saúde física, psicológica, as relações sociais e o meio ambiente.
Nesse sentido, a qualidade de vida reflete a percepção
que têm os indivíduos de que suas necessidades estão sendo satisfeitas ou, ainda,
que lhes estão sendo negadas oportunidades de alcançar a felicidade e a
auto-realização, com independência de seu estado de saúde físico ou das
condições sociais e econômicas. (PEREIRA, 2006)
A busca de uma melhoria na qualidade de vida dos idosos torna-se um fator importante, uma vez que essa camada da população está crescendo e representa, de acordo com o censo de 2000, 10% da população brasileira (PEREIRA, 2006). Além disso, atualmente a sociedade prima pela jovialidade e pela capacidade de produção, os idosos por estarem fora desses moldes sofrem preconceito e ficam relegados a segundo plano. Dessa maneira, acabam se sentindo limitados e incapazes, o que afeta a saúde destes em todas as dimensões.
A utilização da música aparece nesse ínterim como um instrumento proporcionador de mudanças na saúde dos indivíduos porque provoca reações nos campos motores e emocionais, afetando diversas áreas cognitivas e emocionais em um tempo muitas vezes imediato (PAZZINI, 2008). Desenvolve também a potencialidade ou o restabelecimento de funções que ajudam no alcance de uma integração intra e interpessoal, gerando uma melhor qualidade de vida. Aliado a esse desenvolvimento a música ainda possibilita que se vivencie vários fatos da vida, ativando a memória, reafirmando a identidade e por fim, resignificando as emoções. (PASSARINI, 2008). Diante deste contexto, percebe-se que é necessária a criação de espaços onde possam ser discutidos temas e realizadas atividades que promovam a saúde dos idosos de forma integral.
A extensão universitária aparece, como um campo que possibilita a criação destes espaços onde se torne possível tratar assuntos relevantes com um público específico. Há também o atendimento das demandas da sociedade, a partir do momento que entra em contato com as suas necessidades e abre canais com diferentes interlocutores, permitindo a interação com a população. Possibilita à sociedade o acesso ao conhecimento científico, de maneira que se torna possível a cooperação dessa na construção de novos conhecimentos ativos que podem ser testados e agregados a novos valores. Propicia-se uma articulação entre ensino e pesquisa, além da transformação que ocorre na Universidade e na sociedade decorrente da interação promovida entre os dois campos.
A prática da extensão permite, ainda, que o aluno entre em contato com o mundo real e adquira experiências importantes para a sua formação. As situações inusitadas, às quais ele fica exposto, podem trazer frustrações e dificuldades que possibilitem o entendimento de como se deve operar na prática. Dessa forma, os conhecimentos teóricos são aplicados nas situações do dia-a-dia. (HENNINGTON, 2005) Essa prática é importante para fazer com que o aluno esteja atento e possa aproveitar as oportunidades decorrentes da vivência extensionista, a fim de crescer com elas eliminando preconceitos e esteriótipos, resultando numa nova forma de se enxergar o mundo e, conseqüentemente, provocando mudanças no posicionamento deste frente a problemas reais do cotidiano. Portanto, é um trabalho que contribui para formar jovens cientes das necessidades da população e que tem muito a acrescentar ao desenvolvimento do crescimento pessoal e profissional. Nesse trabalho a comunidade a qual as atividades são destinadas também cresce, pois eles entram em contato com outros conhecimentos abrindo sua visão do mundo, uma vez que a maneira como estes pensam e agem são revistas.
O relato então, descrito neste artigo será de uma experiência de extensão de alunas de psicologia que utilizaram a música para o resgate de memórias, buscando trabalhar a dimensão psicológica a fim de fomentar uma discussão sobre o tema hipertensão e com isso, possibilitar a promoção da saúde para o público de idosos ao qual a atividade foi destinada. Os resultados se mostraram satisfatórios, uma vez que houve uma manifestação positiva por parte deles ao interagirem com a atividade proposta. Além disso, houve crescimento dos alunos ao entrarem em contato com o público, resultando em novas formas de se enxergar as relações interpessoais, livre de preconceitos devido ao contato com as reais demandas dos envolvidos.
A atividade foi desenvolvida pelo NuPS e realizada por alunos de psicologia e fisioterapia que trabalharam de forma conjunta a fim de fomentar uma discussão sobre o tema proposto, englobando a mente e o corpo.
A preparação da atividade se deu por meio da criação de um espaço de interlocução entre os alunos participantes e a professora orientadora através de reuniões. A primeira reunião consistia na preparação para a realização da atividade, onde informações relevantes foram passadas, tais como: a característica do local, o público atendido, o tempo de duração da atividade e o objetivo desta. O tema para a atividade foi decidido pelos alunos, que optaram pela hipertensão arterial devido a característica do público, uma vez que este seria constituído por idosos. Os alunos foram agrupados por cursos afins e orientados a montar uma oficina que trabalhasse o tema, focando as diferentes visões, porém de forma complementar. A segunda reunião consistia na capacitação dos alunos para a realização da atividade. Os projetos foram apresentados e receberam os devidos ajustes da coordenação.
A oficina de psicologia e fisioterapia foi devidamente preparada e planejada em conjunto e programada para ser executada em 30 minutos, de forma que a oficina ficou dividida em quatro partes: apresentação do tema hipertensão, a importância da mente e do corpo para a prevenção e combate desta doença; a execução de um alongamento, utilizando músicas instrumentais para trabalhar o corpo; a execução das músicas para resgatar as memórias e a expressão dos sentimentos trabalhando a mente. Por fim, a conclusão da oficina reforçou a interação entre mente e corpo para a promoção da saúde de forma integral e unificadora.
A execução da oficina ocorreu duas vezes, sendo que na primeira vez 30 pessoas participaram e na segunda vez 10 pessoas. Descreveremos principalmente a atividade focando a área de psicologia, que tinha o objetivo de trabalhar a dimensão psicológica dos envolvidos, já que somos alunas do referido curso e pretendemos relatar a partir da nossa própria experiência.
No início da oficina apresentamos e falamos sobre o tema que trabalharíamos, a hipertensão, ressaltando a importância de ser trabalhado o corpo e a mente para o combate e prevenção desta doença. As pessoas escutaram atentas e então, dissemos que começaríamos a trabalhar o corpo através do relaxamento. Para isso, os estudantes de fisioterapia colocaram uma música relaxante e orientaram a execução de vários exercícios de alongamento. Os alunos estimularam a participação de modo que todos se envolveram na execução e seguiram os passos orientados, demonstrando ao final da atividade mais disposição. Alguns comentários acerca da importância de realizar alongamento apareceram, de modo a demonstrar que eles gostaram da atividade e perceberam a importância de se trabalhar o corpo para a obtenção de saúde. Posteriormente, as atividades foram dirigidas pelos alunos da psicologia porém, executada por todos.
A música foi utilizada para o resgate das memórias e para trabalhar a questão psicológica dos envolvidos, uma vez que esta, muitas vezes, é utilizada como instrumento na promoção de uma boa qualidade de vida. Ela pode estar associada à prevenção de doenças e, até mesmo, ao bem-estar físico e mental das pessoas, possuindo um papel terapêutico.
Pode-se atribuir à música tanto a capacidade de
atingir o homem de forma integral, a partir de suas características inerentes
(elementos - som, ritmo, melodia, harmonia; parâmetros do som - altura,
intensidade, timbre, duração), quanto à capacidade de atuar como uma ponte
entre psique e corpo, devido a sua imensa possibilidade inerente de comunicar e
expressar emoções, ficando claro o seu potencial terapêutico. (FERREIRA, 2003)
Começamos colocando uma música lenta, que tem como tema o amor, e pedimos aos idosos que se lembrassem de momentos antigos de suas vidas ligados a questão do amor, tais como: quando eram crianças e a mãe brincava com eles; os netos que eles embalaram; um antigo namorado; das brincadeiras com os filhos; entre outras. Os idosos dançavam e repetiam os movimentos que direcionávamos e que se relacionavam as lembranças. A expressão dos sentimentos foi bastante presente, de forma que as pessoas sorriam e comentavam momentos de suas vidas antes esquecidos. Uma senhora se envolveu tanto, que até chorou ao lembrar de uma música que a sua mãe cantava quando ela era criança, demonstrando muita emoção ao cantar a música. Tal fato está ligado a característica que a música tem de atingir instâncias psíquicas que as vezes a palavra não alcança, valorizando a história de cada idoso por meio de canções que mesmo relembrando momentos individuais, remetem a questões coletivas que marcaram uma parte da vida, geração e época, de modo a recuperar aspectos perdidos. (PAZZINI, 2008)
A segunda música trazia lembranças relacionadas aos bons momentos da infância. Com isso, conseguimos resgatar várias lembranças e sentimentos. Eles se lembraram, por exemplo, das brincadeiras de criança: peteca, queimada, pular corda, dentre outras. Isso ocorre porque a música permite a abertura de canais de comunicação e possibilita o encontro consigo mesmo por meio da movimentação de energias internas. (PASSARINII, 2008)
A terceira teve o intuito de fazer com que eles se soltassem e dançassem ao comando da música. Alguns idosos disseram que dançar era bom e que gostavam muito, por isso percebemos que eles se soltaram e dançaram de forma leve. Porém alguns demonstraram certa timidez e não se envolveram muito com a dança, mas olhavam e sorriam ao ver os outros dançarem.
A quarta música era mais agitada e pedia que todos sorrissem e se alegrassem. Nesse momento todos os presentes se envolveram e dançaram, já que a música dizia para espantar a tristeza. Eles sorriam e dançavam ao ritmo da música demonstrando alegria e bem-estar.
Para finalizar a atividade falamos que uma das principais causas da
hipertensão é o estresse e que, portanto, não podemos deixar de relacionar
mente e corpo. Os dois estão intimamente ligados e um influencia o outro. Ambos
precisam estar
A segunda vez em que a oficina foi realizada 10 pessoas participaram. Ela ocorreu da mesma forma que a primeira vez, porém percebemos que o envolvimento foi muito maior. Acreditamos que tal fato se deu devido a quantidade menor de participantes e a experiência que adquirimos com a primeira execução.
O momento da fisioterapia se deu da mesma forma, com a participação de todos. Porém no momento da psicologia, o envolvimento foi maior e os idosos se soltaram em todas as músicas, dançando bastante e interagindo conosco. Eles se soltaram e até direcionaram alguns movimentos, seguindo o ritmo das músicas, alguns até fecharam os olhos durante a primeira e segunda música que promoveram o resgate de memórias se lembrando dos antigos momentos de suas vidas e nos relatando sobre as suas antigas vivências. Na música mais agitada todos se soltaram e sorriram muito, já que esta pedia exatamente que todos sorrissem. Podemos perceber que um senhor que se mostrou resistente no início da atividade se soltou e dançou muito sorrindo todo momento interagindo com os demais participantes. Ele que antes estava resistente a interação, ganhou a atenção de todos, pois se soltava ao som da música. A música se mostra como um instrumento que possibilita um sentimento de alegria e bem-estar importante para a promoção da saúde nos idosos, pois dessa forma eles podem se sentir ativos e capazes de se alegrarem estimulando os idosos em diferentes dimensões: psíquica, física e relacional. Finalizamos então, falando da importância de se trabalhar a mente e o corpo para o combate a hipertensão, assim como da primeira vez.
A realização da oficina foi satisfatória, pois nos dois momentos a reação dos idosos foi positiva, de forma que se emocionaram nas músicas mais lentas e agitaram-se nas mais animadas. Além disso, ao final da execução da oficina eles nos abraçaram e disseram ter gostado muito. Relataram que os momentos vivenciados permitiram que eles se lembrassem de fatos antigos que trouxeram alegria e que se sentiam mais bem dispostos. Essa experiência evidenciou a capacidade que a música tem de trabalhar aspectos físicos, psicológicos, sociais e relacionais, já que as modificações ocorridas nos idosos após a realização da atividade foram positivas. A música ainda demonstrou uma dimensão terapêutica benéfica para a saúde, trazendo satisfação pessoal, superação de limites e desenvolvimento de potencialidades e capacidades. (PATROCÍNIO, 2006)
De modo geral, os resultados se mostraram positivos, uma vez que atingimos nosso objetivo, que era o resgate de memórias através da música a fim de proporcionar alegria e bem-estar, trabalhando a dimensão psíquica dos idosos. Conseguimos também mostrar a importância da saúde psíquica e física para o combate e prevenção da hipertensão, para a busca de uma melhoria na qualidade de vida.
A velhice na atualidade sofre muito preconceito onde tudo deve expressar juventude e força, porém a população brasileira está em processo de envelhecimento e, portanto, devem ser pensadas alternativas promovedoras de saúde e qualidade de vida para essa camada da população. Entendemos que é necessário investir mais em promoção de saúde psíquica e física aos idosos, e uma das alternativas para tal intento é a utilização de atividades que possibilitem a alegria e o bem-estar. A música permite, além do desenvolvimento destes fatores, a possibilidade de serem trabalhados sentimentos dos idosos de forma leve e gostosa.
Foi possível também, perceber que a música é um ótimo recurso terapêutico, já que estimula as emoções subjetivas e a memória. Ao final da atividade, as pessoas estavam mais sorridentes, demonstrando bem-estar e alegria, o que permitiu que percebêssemos o benefício da música para a promoção da saúde e melhoria da qualidade de vida. Além de ter proporcionado aos alunos envolvidos, experiências que permitiram um conhecimento e uma interação maior com esse público, resultando em eliminação de preconceitos e uma conseqüente ampliação das suas relações interpessoais.
5- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FERREIRA, Deise Luci Barsotti. Musicoterapia e Câncer Infantil: inter-relação entre música, emoção e sistema imunológico. 2003. Disponível em: <http://www.sgmt.com.br/MusicoterapiaeCancerInfantil_Barsotti.pdf> Acesso em: 03 ago. 2008.
FLECK, Marcelo P. A. et al. Aplicação da versão em português do instrumento de avaliação de qualidade de vida da Organização Mundial da Saúde (WHOQOL-100). Revista de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, Faculdade de Saúde Pública, v. 33, n. 2, p. 198-205, abril 1999.
HENNINGTON, Élida Azevedo. Acolhimento como prática interdisciplinar num programa de extensão universitária. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 21, n. 1, 2005.
PASSARINII, Luisiana B. França. A musicoterapia e o idoso. Possibilidades de prevenção e tratamento musicoterapêutico. Disponível em: http://www.portaldoenvelhecimento.net/pforum/aptv15.htm. Acesso em 19 de junho de 2008.
PATROCÍNIO, Wanda. Musicalidade e Movimento Corporal para adultos e idosos. 2006. Disponível em: http://www.preac.unicamp.br/memoria/textos/Wanda%20Patrocinio%20-%20completo.pdf. Acesso em 11 de junho de 2008.
PAZZINI, Daiane. A contribuição da musicoterapia na velhice. Disponível em: http://www.portaldoenvelhecimento.net/artigos/artigo1697.htm. Acesso em 19 de junho de 2008.
PEREIRA, Renata Junqueira et al. Contribuição dos domínios físico, social, psicológico e ambiental para a qualidade de vida global de idosos. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul, Porto Alegre, v. 28, n. 1, 2006.
6- REFERÊNCIAS
CONSULTADAS
CASTRO, Luciana Maria Cerqueira. A universidade, a extensão universitária
e a produção de conhecimentos emancipadores. In: ASSOCIAÇÃO NACIONAL
DE PESQUISA
MOURA, Luciana Fonseca de; CAMARGOS, Anadias Trajano.
Atividades educativas como meio de socialização de idosos institucionalizados. Anais do 8º Encontro de Extensão da UFMG. Belo
Horizonte