A psicologia em práticas de saúde

 

Bianca Ferreira Rocha 1

João Henrique de Sousa Santos2

 

Resumo

 

Este trabalho traz para o debate as relações da psicologia na área da saúde, suas implicações e contribuições para o aluno em formação. A fundamentação teórico-metodológica baseia-se em uma perspectiva interdisciplinar e na prática educativa como expressão do cuidado em saúde.  Objetivamos refletir sobre a importância educativa como forma de promoção da saúde, a partir do ponto de vista de alunos de psicologia inseridos em atividades multi e interdisciplinares de projetos de extensão. Os resultados apontam para as várias formas de perceber a contribuição da psicologia inserida no contexto da área da saúde, permitindo um diálogo com diversas outras especialidades da área, ampliando o espaço educativo e o enriquecimento da formação do aluno na prática em saúde. Concluindo, estas atividades possibilitam a consolidação do aprendizado em promoção da saúde com atuação no reforço do sujeito social, na interação, na interdisciplinaridade ampliando a visão sobre a concepção de homem, o cuidar de si e a defesa de uma melhor qualidade de vida.

 

Palavras-chaves: Promoção da Saúde. Extensão. Interdisciplinaridade. Psicologia na Saúde

 

 

__________________________________________ 

1 Aluna do 4º período de graduação em Psicologia da PUC-MG – Unidade São Gabriel.

2 Aluno do 3º período de graduação em Psicologia da PUC-MG – Unidade são Gabriel.

   Estagiários do NuPS.

 

 

 

 

 

1- INTRODUÇÃO

 

            Partindo do conceito de saúde, entendida em sua amplitude como promoção de um bem-estar físico, psíquico e social, e não sendo considerada apenas ausência de doença, mas um bem-estar com ampla determinação, a psicologia tem como objetivo trabalhar o indivíduo como um todo, contribuindo para a promoção e manutenção da saúde deste. Observa-se hoje que apesar de muito se falar em biopsicossocial, a prática biologicista ainda é mais evidenciada, dificultando a inserção da psicologia em campos de intervenção interdisciplinar na área da saúde.

            Segundo Marcondes (2004), para se promover saúde é necessário além de um trabalho interdisciplinar, utilizar técnicas educativas, possibilitando uma educação em saúde que capacite a comunidade a atuar como agente provedor na participação e no controle da sua qualidade de vida e de saúde. Nas universidades, a extensão surge como um importante mecanismo para o trabalho da psicologia, uma vez que essa possibilita ao aluno, entrar em contato direto com o “mundo real”, permitindo a aplicação dos conhecimentos teóricos aprendidos em sala de aula. Muitos projetos de extensão e diferentes campos de estágio objetivam desenvolver práticas educativas em promoção da saúde, envolvendo um trabalho interdisciplinar das diversas áreas afins.

 

2- PRÁTICAS DE PROMOÇÃO E MANUTENÇÃO DA SAÚDE

 

            Segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, saúde é o completo bem-estar físico, psíquico e social, ocorrendo conjuntamente, e não a ausência de doença ou enfermidade. Este conceito traz uma nova visão sobre saúde, entendendo esta em sua amplitude a partir do eixo biopsicossocial, conseqüentemente desconstruindo o conceito de saúde do modelo biologicista,  centrada nos aspectos biológicos do indivíduo. Em concomitância com essa definição conceitual da OMS, Campos (1996) classifica saúde como melhores condições econômicas, ambientais, habitacionais e educacionais.

            Tomando o indivíduo como protagonista nas concepções e promoções de saúde, verificamos que ambos os conceitos citados, trazem contribuições para uma maior compreensão sobre saúde. A OMS busca centralizar a saúde no indivíduo, levando em consideração os pontos inerentes a este, o que é contraposto por Campos, quando traz o conceito de saúde para o ambiente no qual o indivíduo está inserido, ou seja, a visão de que saúde é exclusivamente referente ao indivíduo é desviada para o meio no qual este interage. Segundo Buss (2000), promoção de saúde implica dois focos: transformação dos comportamentos dos indivíduos e transformação do coletivo-ambiente.

            As práticas relacionadas à saúde estão diretamente ligadas à compreensão e visão que se tem desta. Vê-se que medidas de prevenção e promoção da saúde só serão eficazes, bem executadas com práticas efetivas, quando o conceito de saúde estiver bem entendido em sua amplitude. As doenças psicossomáticas surgem para confirmar que não se pode separar corpo e mente, segundo Gonzalez Rey (1997), não há separação entre a saúde mental e somática no sistema da saúde humana, sendo necessário buscar e explicar os diversos pontos de interação entre essas, no curso do processo saúde-doença.

            Ainda verifica-se a predominância pelos sinais objetivos do não funcionamento do corpo e a ênfase na cura e na medicalização, ao invés da prevenção. Em contrapartida surgem outros fatores que têm contribuído para a um maior entendimento sobre o que é saúde, assim como, a saúde entendida como qualidade de vida em uma perspectiva biopsicossocial e até mesmo a inclusão do cultural, histórico e espiritual. Sendo assim, o sujeito deve ser visto em sua completude, considerando todos os aspectos essenciais a sua vida.

 

3- A PSICOLOGIA NA ÁREA DA SAÚDE

 

            A psicologia muito tem a contribuir na área da saúde. Com foco na saúde do indivíduo, a psicologia está sujeita a cometer o mesmo erro do modelo biomédico, porém com ênfase na saúde mental. Por tal motivo entender saúde na sua amplitude se faz necessário para todos os profissionais que tem como objeto de trabalho o ser humano, o indivíduo.

 

A Psicologia de Saúde é o agregado de contribuições educacionais, científicas e profissionais específicas da Psicologia à promoção e à manutenção da saúde, à prevenção e ao tratamento da doença, à identificação de correlatos etiológicos e diagnósticos da saúde e da doença e respectivas disfunções. Ela visa ainda a análise e o progresso do sistema de assistência à saúde e o desenvolvimento da política sanitária. (MATARAZZO, 1980)

 

            Verifica-se que o desenvolvimento da psicologia na saúde estimula a prevenção e promoção da saúde, assim como a participação do profissional psicólogo em equipes interdisciplinares, não se limitando somente à instituições de saúde (hospitais), mas atuando na comunidade de uma maneira geral, tornando um importante espaço de promoção e prevenção. Contribuições pertinentes que cabe à psicologia oferecer estão ligadas a utilização de práticas educativas para capacitação da comunidade para atuar junto aos seus semelhantes. A extensão universitária, neste sentido, se mostra eficaz em proporcionar ao discente uma ampliação e produção de conhecimento a partir da realidade social. A psicologia na área da saúde é um campo que se estende para a atuação do profissional psicólogo, havendo ainda, muitos espaços a serem explorados. Quando incluída na saúde, a psicologia atribui características de humanização, cuidado e qualificação da atenção à saúde, preocupando-se com as condições de saúde da população em geral.

            A psicologia na área da saúde pode ainda, desenvolver um trabalho com as equipes interdisciplinares, construindo junto com as outras áreas do saber um conhecimento mais amplo e integrado do homem, pois este é um ser que não pode ser dividido em partes para ser estudado, mas sim compreendido em sua totalidade – bio, psico, social, cultural, histórico e até mesmo a dimensão espiritual, pois segundo Nunes e Müller (2003) a dimensão da fé pode ajudar a pessoa a enfrentar dificuldades que surgem no decorrer da vida.

 

4- INTERDISCIPLINARIDADE

 

            A idéia de um pensamento unitário sempre existiu na humanidade, do homem pré-histórico – mito; passando pelos gregos – cosmos; até chegar na Idade Média com o pensamento de um Deus criador. No Iluminismo, século XVIII, também houve uma preocupação com a integração dos saberes quando a enciclopédia foi tomada como modelo da unidade de conhecimento, visto que foi organizada para ter uma síntese do conhecimento científico de diversas áreas do saber.

Porém, na Modernidade começa o processo de desintegração do saber que vai ser inaugurado com Descartes estabelecendo o uso da razão como forma de se conhecer a verdade, caracterizado pela decomposição da coisa a ser estudada. Esse modelo de pensamento da modernidade atenderá a industrialização, pois alia ciência e técnica abrindo caminho para a fragmentação do saber, levando dessa forma as especializações. Desse modo, cada vez mais serão procurados especialistas que dêem conta de resolver problemas específicos. A ciência vai se estruturar então, na base da especialização do sujeito científico com uma formação pautada na disciplinaridade levando a fragmentação do objeto de estudo.

            O conceito de interdisciplinaridade aparece no século XX com a necessidade de transcender o conhecimento fragmentado (VILELA; MENDES, 2003). Desse modo, ele se apresenta como uma forma de ampliar a visão de mundo, de nós mesmos e da realidade, uma vez que a realidade é multifacetada e precisa ser entendida em sua complexidade e qualquer estudo que leve em conta somente uma das suas facetas, torna-se incompleto. 

 

O projeto interdisciplinar envolve questionamentos sobre o sentido e a pertinência das colaborações entre as disciplinas, visando um conhecimento do “humano”. E, nesse sentido, a interdisciplinaridade é chamada a postular um novo tipo de questionamento sobre o saber, sobre o homem e sobre a sociedade. Não é uma “moda”, mas corresponde a uma nova etapa de desenvolvimento do conhecimento. (VILELA; MENDES, 2003)

 

            Há interdisciplinaridade então, quando a comunicação entre os saberes gera integração mútua dos conceitos criando um novo conhecimento para a resolução de problemas concretos, promovendo uma inter-relação das disciplinas e unificação conceitual dos métodos e estruturas. Há então, interdependência entre as disciplinas com um diálogo entre formas de conhecimento e metodologias diversas, construindo novos conhecimentos.

            As pessoas que integram uma equipe interdisciplinar têm que abrir mão da rigidez da sua área, numa atitude de abertura, curiosidade, de troca, de relação, de diálogo, para construir uma identidade profissional com bases amplas de conhecimento, uma vez que um dos fatores que interferem nas equipes interdisciplinares é a forte identificação do profissional com o seu papel no local de trabalho levando a atitude de não abertura para a comunicação com outros profissionais. Visto dessa forma, há dificuldade de inter-relação entre as áreas do saber e conseqüentemente fragmentação do objeto de estudo.

            Na área da saúde tais dificuldades têm implicações diretas na eficácia das ações promovedoras de saúde, uma vez que o homem ao ser estudado de forma fragmentada não é atingido em todas as suas dimensões, fazendo com que a reincidência se torne constante. Os profissionais de saúde devem então, ser formados para ter “aprendizagem para o trabalho em equipes integradas partindo de uma concepção ampla de saúde, que inclua a subjetividade do indivíduo, suas interações com os outros, seu lugar social, sua relação com o corpo.” (GALVAN, 2007). Assim, o homem poderá ser atingido em sua totalidade e sua saúde ser promovida.

            A psicologia por sua vez, entrará nesse contexto como um campo do saber que contribuirá para a promoção e manutenção da saúde, trocando conhecimentos com outras áreas da saúde, ampliando o espaço educativo e o enriquecimento das ações que visam a prática em saúde. O homem passa a ser entendido em sua complexidade, de maneira que há consolidação e reforço do sujeito bio, psico, social, histórico, cultural e espiritual.  

 

5- CONCLUSÃO

 

            O conceito de saúde atualmente é importante para se pensar na promoção e manutenção da saúde, uma vez que ele será o norteador das práticas exercidas por profissionais que lidam com a saúde dos indivíduos. As atividades exercidas por esses profissionais ainda são ineficazes por não conseguir olhar o homem nas suas diversas dimensões, fazendo com que as intervenções sejam direcionadas para apenas uma parte do problema esquecendo que o homem é um todo complexo e precisa ser entendido com um ser integrado. Essa visão fragmentada e as práticas de saúde decorrente desta visão não conseguem atingir o homem em sua totalidade e por isso, a interdisciplinaridade torna-se tão importante para integrar os conhecimentos e possibilitar a real promoção da saúde. 

            A psicologia por sua vez, quando está imersa nas práticas de saúde contribui para a ampliação da visão do homem. A contribuição da psicologia quando aliada a outros campos do saber faz com que a eficácia das práticas de saúde seja atingida, uma vez que o homem é entendido como um ser integral e portanto, não dissociável. Nesse molde de ação com vários conhecimentos se inter-relacionando com o objetivo de atingir a complexidade do homem a promoção da saúde torna-se possível, visto que as suas questões individuais e o contexto ao qual este está imerso tornam-se relevantes. Torna-se importante pensar numa formação dos profissionais de saúde para atuarem em equipes interdisciplinares a fim de permitir que a promoção da saúde seja cada vez mais pensada e praticada.

      

             

 

6- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BUSS, Paulo Marchiori. Promoção da saúde e qualidade de vida. Ciência e saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, 2000.

 

CAMPOS, T. Saúde: uma área para diferentes profissionais. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), 1996.

 

GALVAN, Gabriela Bruno. Equipes de saúde: o desafio da integração disciplinar. Revista SBPH, dez. 2007, vol.10, n.2, p.53-61.

 

GONZALEZ REY, Fernando. Psicologia e saúde: desafios atuais. Psicologia Reflexão e Crítica. Porto Alegre, v. 10, n. 2, 1997.

 

MARCONDES, W. B. A convergência de referências na promoção da saúde. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 13, n. 1, p. 5-13, jan./abr. 2004.

 

MATARAZZO, J. Behavioural health's challenge to academic, scientific and professional Psychology. American Psychologist, New York, v. 37, 1980.

 

NUNES, M. L.; MÜLLER, M. Espiritualidade influencia na qualidade de vida. PUCRS Informação, Porto Alegre, v. 26, n.116, p. 25, 2003.

 

VILELA, Elaine Morelato; MENDES, Iranilde José Messias. Interdisciplinaridade e saúde: um estudo bibliográfico. Rev. Latino-Am. Enfermagem, Ribeirão Preto, v.11, n.4, 2003.   

 

 

7- REFERÊNCIAS CONSULTADAS

 

 

GOMES, Annatália Meneses de Amorim et al. Fenomenologia, humanização e promoção de saúde: uma proposta de articulação. Saúde e sociedade. São Paulo, v. 17, n. 1, 2008.

 

HENNINGTON, Élida Azevedo. Acolhimento como prática interdisciplinar num programa de extensão universitária. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 21, n. 1, 2005.

MINAYO, Maria Cecília de Souza; HARTZ, Zulmira Maria de Araújo; BUSS, Paulo Marchiori. Qualidade de vida e saúde: um debate necessário. Ciência e saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, 2000.

SILVA, Laura Belluzzo de Campos. A psicologia na saúde: entre a clínica e a política. Revista Departamento Psicologia, UFF, Niterói, v. 17, n. 1, 2005.

 

SOARES, Teresa Cristina. "A vida é mais forte do que as teorias" o psicólogo nos serviços de atenção primária à saúde. Psicologia ciência e profissão. 2005, vol.25, n.4, p.590-601.

 

TRAVERSO-YEPEZ, Martha. A interface psicologia social e saúde: perspectivas e desafios. Psicologia em estudo, Maringá, v. 6, n. 2, 2001.

 

Voltar