Pauline Rafaela Soares Cacique2
RESUMO:
O presente artigo pretende refletir e repensar a postura do aluno diante do ensino. Proposta que surgiu a partir de um projeto de extensão universitária realizado com o público jovem de uma escola municipal, incitando-nos, assim, a pesquisar e discutir mais sobre o tema.
PALAVRAS-CHAVE: Aluno; Aprendizagem; Ensino; Extensão; Passividade.
1Aluna do 3° período de Psicologia da PUC Minas - Unidade São Gabriel.
2 Aluna do 2° período de Psicologia da PUC Minas – Unidade São Gabriel.
Objetivamos com o presente artigo refletir e repensar a postura do aluno diante do ensino. Proposta que surgiu a partir de um projeto de extensão universitária realizado com o público jovem de uma Escola Municipal de Belo Horizonte.
Inicialmente, precisamos deixar claro o conceito de extensão universitária, para, assim, prosseguirmos na descrição da atividade e em nossa reflexão. Um projeto de extensão se caracteriza por ser uma atividade voltada para a sociedade, em que os participantes organizam oficinas, dinâmicas e várias outras formas de conscientizar a população com relação a determinado assunto, nesse caso, a saúde. “Essas práticas têm sido pensadas, atualmente, de forma articulada com o ensino e a pesquisa, possibilitando à comunidade acadêmica uma interlocução com a sociedade e o cumprimento da missão da Universidade” (Política de Extensão da PUC Minas, 2006).
Nosso objetivo, de acordo com o projeto e as demandas da escola, foi passar um filme voltado para a importância de uma alimentação saudável, e prosseguir com as devidas discussões orientadas. Este é um dos projetos do Núcleo de Promoção da Saúde – NuPS, da Pró Reitoria de Extensão – PROEX, da PUC Minas, que visa conscientizar as pessoas com relação à própria saúde e à dos que estão a sua volta. Nele buscamos filmes com temáticas interessantes e pertinentes que possam servir de instrumentos para realizar a promoção de saúde junto às comunidades trabalhadas. A partir destes filmes, realizamos dinâmicas, que são planejadas de forma com que o aluno possa discutir e refletir sobre o tema.
O filme utilizado nessa tarefa foi o “Super Size Me – A dieta do palhaço”. Ele mostra claramente os efeitos danosos que a alimentação inadequada pode trazer ao organismo, apresentando esses danos em todas as esferas da nossa vida, inclusive com relação ao social e ao psíquico. Sem falar no físico, que é um dos efeitos mais evidentes.
Descreveremos a seguir os passos metodológicos da atividade e as reflexões que ela suscitou.
A referida atividade contou com a participação de sete estagiários do curso de psicologia da PUC Minas São Gabriel e com a coordenação do NuPS, desde o seu planejamento, preparo e execução, a partir da demanda da escola em trabalhar questões referentes à alimentação.
O público alvo foi constituído por quarenta e um alunos de sétima e oitava séries, na faixa etária de treze a quinze anos, aproximadamente, dividimos em três grupos para as discussões após todos assistirem ao filme.
Nossa proposta para a dinâmica de discussão foi um júri simulado, no qual alguns estudantes defenderiam a alimentação saudável e outros seriam contra, defendendo a alimentação industrializada. Posteriormente, os alunos deveriam elaborar cartazes com gravuras e/ou desenhos de alimentos nutritivos para divulgá-los na escola, expondo-os no mural. As atividades após o filme seguiram com o intuito de promover a reflexão sobre os temas abordados. Elas suscitaram diálogos e a produção de argumentos convincentes para a dinâmica do julgamento, exigindo participação ativa dos adolescentes. A elaboração dos cartazes permitiu a fixação do que haviam aprendido, utilizando criatividade e liberdade para se expressarem.
O objetivo da dinâmica foi que os alunos, utilizando seus pontos de vista e questionamentos, pudessem chegar a uma conclusão sobre qual seria a melhor forma de se alimentar e conseguissem elaborar uma forma crítica para refletir e discutir tal assunto. Com esta atividade, eles também construíram, de forma mais prazerosa, sem a mesma rotina de sala de aula, conhecimento que pode ser aplicado no dia- a- dia.
Assim, percebemos a importância de estimular a capacidade reflexiva e
crítica dos estudantes. E, com base em outros projetos de extensão, percebemos
que nem sempre os jovens conseguem ser independentes na criação de
conhecimento, como é possível identificar na fala dos participantes de uma
dessas atividades. Através da fala de Werri e Ruiz (2001): “Como integrantes desse grupo pudemos
observar como algumas crianças são dependentes, tendo dificuldades de criticar
e mesmo de opinar”, precisamos repensar o processo de
ensino-aprendizagem e refletir sobre as possibilidades de mudança.
Podemos constatar que, na
atualidade, a postura do estudante é cada vez mais passiva e, geralmente, isso
se dá pelo que é aprendido no decorrer do processo de ensino. O jovem é
estimulado a decorar, reproduzir e copiar. O professor, por sua vez, não
costuma exigir além disso. E é aí que se encontra um grave erro na nossa
sociedade, já que “(...) conhecimento não é acumulado nem descoberto pelos
alunos: ele é construído/ moldado por meio da ação comunicativa entre as
pessoas” (MERCER apud FERREIRA, 2001).
Com isso, formam-se sujeitos que
não sabem aplicar o que aprenderam, pois o que aprenderam foi repetir algo
dado, estipulado. Não conseguem agir no mundo, com isso, se tornam vulneráveis,
pois o que sabem é que o professor é o dono da única verdade e não deve ser
questionado. O que ele ensina é o que é, como é. Os alunos não aprendem a
constituir seu próprio conceito, um ponto de vista independente, autônomo. O
resultado é: “Tornam-se ecos das receitas ensinadas e aprendidas. Tornam-se
incapazes de dizer o diferente” (ALVES apud
WERRI e RUIZ, 2001). A criatividade, nesse contexto, é deixada de lado.
Portanto, quando o professor
assume essa postura de treinador, o aluno simplesmente reproduz, não há
construção de conhecimento e o que realmente deveria ser enfatizado – a
capacidade reflexiva e crítica – é negligenciado. “Ao lado do burocrático
ministrador de aulas, tem-se, portanto, o aluno passivo e domesticado que
apenas decora e nada mais faz do que compactuar com a atitude de seu
professor-instrutor”. (FERREIRA, 2001)
O aluno se torna incapaz de pensar por si próprio, de tentar buscar caminhos diferentes para uma mesma resposta, se tornam como máquinas, ou seja, sempre repetindo os mesmos movimentos, se limitando a copiar o que foi dito em sala. Ele é privado de conhecer e explorar novos caminhos que o levam para novas descobertas.
O mau relacionamento entre
professor e aluno também é um dos obstáculos para o desenvolvimento e
construção do conhecimento em sala de aula. Muitos professores se comportam de
forma autoritária, impondo as regras sem explicá-las, o que faz com que o aluno
não tenha liberdade para expressar sua individualidade e suas opiniões, levando
este a se tornar um indivíduo conformista e facilmente manipulado. Os
professores que não conseguem abandonar a postura de todo-poderoso e “donos”
dentro da classe prejudicam a formação de seu aluno como aprendiz e também como
membro de uma sociedade, no que diz respeito a vedar suas opiniões e dúvidas,
não permitindo a autonomia das idéias, mas sim criando meros repetidores à fala
do professor, do livro didático ou da instituição em que se encontra.
Com essa postura, cria-se um
abismo entre os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem e a formação do
aluno é seriamente prejudicada. O ambiente escolar, dessa forma, se torna
limitado, ao invés de ser um espaço produtivo e sem barreiras no que diz
respeito à construção de conhecimento e ao crescimento pessoal.
É preciso mudança para
melhorar o relacionamento entre ambas as partes e para o desenvolvimento de uma
educação que valorize o que é produzido pelo estudante. Para tanto, é
necessário uma reformulação nas técnicas didáticas do educador, pois, segundo Ferreira (2001), professor e aluno precisam
estar ativos na “construção do saber”.
Faz-se necessário tornar a sala
de aula, que muitas vezes é vista como um ambiente de pressão, em um ambiente
de motivação, onde os alunos se sintam a vontade para aprender e tenham prazer
pelo saber em vez de tornar o conhecimento uma obrigação, um fardo a ser
carregado. A partir do momento em que a sala de aula se torna um lugar de
produção de conhecimento, o aluno passa a ser um indivíduo crítico, capaz de
refletir sobre suas questões, inclusive sociais e culturais.
È papel dos profissionais
voltados para a área da educação (professores e pedagogos, dentre outros)
repensar o próprio método de ensino e mudar a postura diante da realidade
escolar atual. Os psicólogos podem promover intervenções para ajudar tantos
professores quanto alunos, com a finalidade de promover melhorias na educação
e, principalmente, na relação professor-aluno.
Logo, o diálogo deve ser valorizado
como forma de estabelecer um relacionamento positivo, tornando a sala de aula
um ambiente onde o aluno se sinta a vontade para se expressar e desenvolver
suas habilidades e capacidades. Em conjunto, professor e aluno devem trabalhar
para que ambos sejam participantes ativos na construção do conhecimento.
5- REFERÊNCIAS
FERREIRA-JN, Acácio
de Assunção. Autoridade ou autoritarismo? A Didática do comportamento: uma
necessidade na relação professor-aluno. Disponível em:
<http://209.85.215.104/search?q=cache:9yMgEEEGVBEJ:www.artigocientifico.com.br/uploads/artc_1151279183_45.doc+artigo+cientifico+sobre+a+postura+do+aluno+em+sala+de+aula&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=4&gl=br>
Acesso em: 21 ago. 2008.
FERREIRA, Maria
Aparecida Gomes. Aluno domesticado vs
aluno reflexivo
A visão do
licenciando sobre o papel do aluno em sua futura prática pedagógica. Linguagem & Ensino, Vol. 4, No. 2,
2001 (107-122). Disponível em: <http://rle.ucpel.tche.br/php/edicoes/v4n2/g_maria.pdf>
Acesso em: 07 ago. 2008.
Pontifícia UNIVERSIDADE
CATÓLICA DE MINAS GERAIS. Política de Extensão. Pró-reitoria de
extensão, 2006. Apresentação. Disponível em:
<http://www.pucminas.br/proex/> Acesso em: 21 ago. 2008.
WERRI, Ana Paula
Salvador; RUIZ, Adriano Rodrigues. Autonomia como objetivo na educação. Ano
I - Nº 02 – 2001. Disponível em:
<http://www.urutagua.uem.br//02autonomia.htm> Acesso em: 19 ago. 2008.